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Artigo do Jornal: Jornal Outubro 2020

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés

"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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O autoamor começa no lar, a partir de pequenos gestos, que, embora singelos, podem trazer, para o espírito imortal, significados profundos, que irão repercutir ao longo da sua existência. Tal é o caso da relação entre Albert Schweitzer, quando menino, e sua mãe, narrado por ele próprio.

Conforme sabemos, o médico laureado com o Prêmio Nobel da Paz foi um grande humanista. De família protestante, seus pais cuidaram com esmero da sua formação religiosa. Nas suas memórias, relata um fato muito interessante, que nos dá a dimensão da sua espiritualidade. Conta-nos ele que, na infância, sua mãe rezava ao seu lado todas as noites. Quando ela se retirava, depois de lhe haver dado um beijo, ele continuava a proferir, secretamente, a seguinte prece, nascida do seu coração: “Bom Deus, protege e abençoa tudo o que respira, preserva do mal todos os seres vivos e faz com que possam dormir em paz”1.

A profunda espiritualidade que o acompanharia pelo resto da vida já se mostrava presente desde a infância.

Há nessa cena algo que nos chama a atenção: a mãe amorosa que prepara o filho para dormir orando com ele e se despedindo com um beijo de boa-noite. Quanta ternura! Quanto cuidado!

Cenários assim constituídos atraem a presença de Bons Espíritos para o lar. Em relação à criança, favorecem o seu reencontro, durante o desprendimento pelo sono, com os Guias Espirituais que a orientam.

E não é apenas esse ganho que é conquistado pela criança. Uma mãe que interrompe os seus afazeres e dedica um tempo para estar exclusivamente com o filho, tratando-o de forma amorosa, dá-lhe a certeza de que é amado, que tem seu próprio valor.

Na infância, a pessoa ainda não tem capacidade cognitiva para fazer análises sobre si mesma. O que ela pensa a seu próprio respeito fica sujeito à opinião de terceiros – em geral dos pais ou pessoas que considera como significativas. É, sobretudo, a partir daquilo que ela ouve a seu respeito, das pessoas a sua volta e, principalmente, da forma como é tratada, que vai construindo o seu autoconceito.

É a partir dele que a criança começa a formar a sua autoestima. Se é positivo, deverá ter uma autoestima elevada: se for negativo, uma autoestima baixa.

Tê-la elevada significa gostar de si mesma, considerar-se uma pessoa de valor, autoconfiante.

Se levarmos em conta a exortação fundamental do Mestre Jesus – “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” –, somos forçados a concluir que somente quando nos amamos somos capazes de amar ao próximo. A mentora Joanna de Ângelis, no livro Conflitos Existenciais, nos ensina que somente é “capaz de amar a outrem aquele que se ama. É indispensável, portanto, que nele haja o autoamor, o autorrespeito, a consciência de dignidade humana, a fim de que as suas aspirações sejam dignificantes”.

Autoamor, no entanto, não é se considerar o centro do mundo. Pais existem que endeusam de tal forma seus filhos, fazendo-lhes todas as vontades, sacrificando-se ao extremo para satisfazer-lhes as vaidades, que dificultam o seu crescimento psicológico, mantendo-os por muito tempo na fase egocêntrica, típica da criança muito pequena.

Mas é preciso ter em mente que a vida é feita de muitos desafios e os pais são responsáveis por fortalecer, nos filhos, a autoconfiança, para que possam enfrentar e superar as provas que assumiram antes de renascer.

Muitos filhos trazem problemáticas difíceis, relacionadas a situações de quedas morais vividas em encarnações anteriores. Antes do renascimento, já aninhavam a esperança de poder contar com as mãos amigas dos pais nas conquistas de novos valores e na correção dos passos equivocados do passado.

Em casos assim, é fundamental a presença de orientadores que os ajudem a transitar pelas provas que os aguardam na caminhada terrena.

Do ponto de vista espiritual, seria bom que os pais estivessem atentos a algumas ações que deveriam estar presentes na sua interação com a criança, como, por exemplo, falar-lhe de Deus, Pai amoroso e bom, que a ama, como a todos os seus filhos; ensinar-lhe a orar; explicar-lhe que todos temos um amigo que vela por nós, nosso Anjo da Guarda; aproveitar todas as oportunidades para afirmar que renascemos para nos tornarmos pessoas melhores. E deixá-la saber o quanto é amada.

Lembremo-nos de que Jesus foi explícito na sua declaração de amor aos seus discípulos, ao proferir essas palavras: “Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis” (João 13:34). Sentir-se amado é a principal porta que conduz ao autoamor.

1 Minha vida, minhas ideias, Rio de Janeiro: Melhoramentos, 1967.

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