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Artigo do Jornal: Jornal Janeiro 2022

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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A cena foi rápida, mas não o suficiente para que não a notasse. A banca de jornal passara a vender carrinhos, desses que aos meninos gostam de colecionar. Ficam na prateleira próxima ao chão, bem na altura dos olhos da garotada que passa. Na esquina, próximo à banca, sentada no chão, uma jovem mulher com uma criancinha ao colo vendia saquinhos de amendoim. Ao entrar para comprar uma revista, noto que um rapaz com um filho, de aproximadamente cinco anos, detém-se em frente à banca. A criança, ao que parece, está familiarizada com o local. Imediatamente começa a movimentar alguns daqueles carrinhos. Escolhe um e entrega-o ao pai, para que finalizasse a compra.

Nisso percebo o pai apontando para um garotinho da idade do seu filho, descalço e com a roupinha rota, que acompanhava a cena de longe, sem nada dizer. Somente olhava. Nada mais. Abaixando-se, fala alguma coisa para o filho. Envolvida com a minha compra, não me dou conta do que se passava. Quando me volto, já vejo os dois garotinhos juntos. O que estava com o pai acabara de entregar um carrinho, igual ao seu, para o menino pobre. Os sorrisos que estampam em seus rostos revelam que o ato fez bem a ambos. E a mãe da criança, que acompanhava a cena de longe, é todo contentamento. Com o coração aquecido, sigo o meu caminho, pensando no importante papel dos pais na educação dos filhos.

Aquela foi uma lição de empatia – esse sentimento que se manifesta quando alguém se coloca no lugar do outro. Imagino que o rapaz tenha dito ao filho: ─ Olha, você não gostaria de dar um carrinho àquele menino? Ele não deve ter nenhum ─ ou seja, o pai estava levando seu pequeno a se identificar com aquele garotinho, fazendo-o refletir. Talvez lhe tenha dito: ─ Se você gosta tanto dos carrinhos, ele, que regula com a sua idade, deve gostar também.

A empatia está diretamente relacionada à compaixão e ao processo de identificação. Ensinar as crianças, desde cedo, a olharem ao seu redor, perceber o que se passa com o outro e tentar registrar o que ele está sentindo é um passo importante na construção de pessoas sensíveis e abertas ao próximo. Mas é preciso ir além. Devemos ensiná-las a agir.

Vivemos em uma sociedade na qual a distância entre as classes sociais se faz cada vez mais acentuada. Sem conviver de perto com crianças que conhecem intimamente a pobreza, as que desfrutam de um padrão de vida confortável podem desenvolver um sentimento de superioridade fomentador do orgulho e da indiferença para com as dores alheias. Quando não é combatido na infância, não raro elas chegam à adolescência com tais sentimentos. Crescer em um ambiente em que se obtém tudo o que se deseja, por vezes, acarreta consequências sérias, como, por exemplo, achar-se uma pessoa merecedora de todos os favores, alguém que não necessita seguir regras e desconhece qualquer tipo de limite. Com esse perfil, dificilmente conseguirá ter empatia e muito menos compaixão por quem quer que seja.

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