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Artigo do Jornal: Jornal Marco 2019

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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Tolerância religiosa. Aprendi o significado dessa expressão antes mesmo de tê-la ouvido pela primeira vez. A lição veio da prática, com a minha mãe. Embora ela fosse neta e filha de espírita e o meu pai fosse filho de uma católica praticante, a diferença de credos religiosos nunca foi obstáculo para uma convivência harmoniosa. Ao contrário, a compreensão profunda do Evangelho de Jesus a fez atender o pedido da sogra para que os netos fossem batizados e   frequentassem, mais tarde, as celebrações da Igreja de Roma. Seus exemplos, porém, de verdadeira cristã e seus comentários sutis sobre o sentido da vida, pautados no espiritismo, fizeram com que alguns de nós adotássemos os postulados dessa doutrina, enquanto outros continuaram católicos, mantendo, porém, profundamente arraigados em nós a tolerância religiosa.

Tendo essa formação, tenho dificuldade em entender como, em pleno século 21, ainda encontramos tantos episódios que demonstram desrespeito pela opção confessional de alguém. Lamentável é saber que se tratam, muitas vezes, de fatos ocorridos em instâncias que deveriam ser as guardiãs da liberdade de credo, como as escolas públicas.

Notícia veiculada na imprensa, com repercussão nas redes sociais, dão conta de que 5ª Câmara de Direito Público, do Tribunal de Justiça de São Paulo, condenou, por unanimidade, o governo ao pagamento de oito mil reais por danos morais causados a uma aluna, adepta do candomblé, que se viu forçada a rezar na escola.

Cursando o 3º ano do ensino fundamental, ela havia srecusado a acompanhar as orações coletivas que, diariamente, eram proferidas em sala de aula. Além de humilhá-la e discriminá-la diante de toda a turma, a professora ainda a fez anotar versículos da Bíblia – o livro que nos é tão caro – como castigo. A família entrou na Justiça contra a escola e ganhou a causa. “A escola pública não deve obrigar que crianças permaneçam em ambientes religiosos com os quais não se identificam ou compactuam”, registrou a magistrada encarregada do caso, na sua decisão. 

Hoje, com a grande penetração das mídias sociais, notadamente o Facebook, não é raro vermos exemplos de adultos expressando sentimentos de ódio contra adeptos de determinadas vertentes religiosas. Não faz muito tempo, vimos um conhecido pai de família postando comentários muito desairosos sobre o Dalai Lama. E, por ironia, a mensagem contestada falava exatamente da necessidade de vivermos juntos como irmãos e irmãs. Nela, o líder religioso reafirmava ser este o único caminho para a paz, a compaixão e a coexistência pacífica. Qualquer outra forma de pensar, a seu ver, seria míope, estreita e desatualizada. De fato, estreiteza de pensamento e dureza de sentimento era o que aquele pai devia estar refletindo para os seus filhos.

Penso naquela menina de oito ou nove anos a passar por uma experiência traumatizante e desnecessária. Penso também nos seus colegas de escola e no mal que toda essa situação provavelmente lhes causou. Considerando a autoridade da professora, é de se imaginar que devem ter lhe dado razão. Acreditaram, talvez, na supremacia de uma religião sobre outra e julgaram ser a adesão ao candomblé algo pecaminoso, uma vez que foi passível de punição. Pobres crianças à mercê dos desatinos dos adultos...

Um ponto positivo que se pode extrair dessa história é a firme convicção da aluna ao se manter irredutível diante de uma exigência descabida. Louvável sua atitude que, certamente, fora forjada no seio da família que a introduziu, desde tão pequena, na cultura do candomblé, mostrando-o como uma religião com valores próprios, na qual se cultuam o respeito às divindades e aos homens.

Impossível não fazer uma analogia com o pensamento de Kardec quando, em 1862, visitando famílias do interior da França que haviam se tornado espíritas há menos de seis anos, encontrou crianças cujos pais já estavam preocupados em lhes passar os ensinamentos recém aprendidos. Pode-se imaginar o desafio que isso deve ter lhes causado, pois o povo francês, naquela ocasião, era predominantemente católico.

Nesses dias de tanta polarização, mais do que nunca, precisamos levantar a bandeira da educação para a paz, para a aceitação das diferenças, e, em especial, para a tolerância religiosa. E não nos faltam argumentos, dentro dos próprios ensinamentos evangélicos, para tal. As memoráveis passagens que revelam como o Cristo tratou aqueles que traziam as marcas de outros credos, como a mulher de Cananeia; ou viviam em regiões hostilizadas pelos judeus, como a Samaritana; ou ainda, os classificados de pecadores, dos quais Maria Madalena é o maior exemplo; se constituem em norte para as nossas vidas. Sejamos, pois, mais tolerantes e compreensivos.

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