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Creio que, sem maiores titulações acadêmicas em meio a tantos intelectuais renomados, fui convidado para este evento pelo curioso motivo de ter escolhido, em 1993, como patrono de uma editora brasileira de livros espíritas, a figura do então quase desconhecido editor francês Maurice Lachâtre. Mesmo para o movimento espírita brasileiro, esta foi uma escolha um tanto surpreendente, uma vez que Maurice Lachâtre não se engajou propriamente no movimento sob a liderança do Codificador do espiritismo, Allan Kardec. O espiritismo é apenas uma das várias áreas pela qual ele se interessou, e Lachâtre iria se envolver nas mais diversas experiências, fossem elas de ordem social, cultural, financeira, empreendedora, filosófica e até mesmo religiosa, por mais paradoxal que isso possa parecer.

Exilado em Barcelona, em 1861, e parceiro de Allan Kardec em outros empreendimentos, Lachâtre abriu uma livraria onde também começou a distribuir obras espíritas francesas. Provavelmente por perceber o crescimento do interesse do público acerca daqueles poucos livros espíritas que ali chegavam, o livreiro francês resolveu importar oficialmente uma maior quantidade de obras, cerca de 300 livros, que desta vez foram confiscados e, sob a análise do bispo de Barcelona, dom Miguel de Palau y Termens, enviados à fogueira, que ardeu a 9 de outubro, às 10h30, na esplanada da cité de Barcelona, onde eram executados os criminosos condenados à morte.

Kardec afirmou que essa data ficaria marcada nos anais da história do espiritismo sob o título de Auto de fé de Barcelona; este evento, de maneira propagandística, foi adjetivado como o último auto de fé realizado pelo Tribunal da Inquisição. Esse crime contra a cultura, cometido pelo bispo de Barcelona e amplamente noticiado pelos meios de comunicação à época, foi o responsável por notável divulgação do espiritismo na Espanha.

Isto que acabo de relatar para vocês é o que restara da biografia de Maurice Lachâtre, no movimento espírita brasileiro, e era apenas isso que eu possuía quando me decidi pela escolha do patrono da editora: uma personalidade que ousara não só desafiar o poder da igreja, mas transformar uma aparente derrota em uma muito bem sucedida campanha de marketing da recém-nascida filosofia, da qual eu também partilhava ao fundar a editora.

Naquele momento, Maurice Lachâtre me pareceu o melhor parceiro para meu projeto editorial. Nós sempre nos achamos mais fortes quando estamos na companhia de alguém que transmite a segurança sabendo o que faz, ao mesmo tempo em que nos sentimos reanimados nas derrotas ao lado de alguém que soube tirar excelente partido das que sofreu. Creio que, com esta explicação, fica justificada a escolha de Lachâtre para patrono da editora, apesar dos poucos dados biográficos existentes em meu poder naquele momento.

Mal sabia eu, na ocasião, que muitas outras afinidades nos uniriam.

Apesar de excluído dos textos da história do espiritismo, Lachâtre, na verdade, havia trabalhado muito em prol da divulgação da doutrina espírita, como poderemos deduzir dos fatos a seguir.

Em 1861, ao lado de Fernandes Colavida, cognominado o Kardec espanhol, Lachâtre foi um dos artífices da difusão do espiritismo na Espanha, país que se tornaria um dos mais importantes polos de sua divulgação no mundo.

Em 1865, no “Dicionário Universal”, Lachâtre registrou as principais palavras que definiam ou explicavam a filosofia espírita: mediunidade, reencarnação, períspirito, espiritismo... Nesse dicionário, foi incluído até um verbete destinado a divulgar a biografia de seu codificador – Allan Kardec – onde, ao final, Lachâtre afirma que, “em futuro talvez próximo, tudo faz prever que ele será citado como um dos reformadores do século 19”.

Prosseguindo em suas atividades espíritas, durante o ano de 1867, já de retorno a Paris, Lachâtre dirigiu a revista espírita “Le Monde Invisible”.

Por volta de 1880, Lachâtre escreveu a obra “Une nouvelle philosophie, le spiritisme”, resgatada pelo prof. François Gaudin, motivo pelo qual tive a oportunidade de produzi-la no Brasil. Esta obra demonstra não apenas as firmes convicções espíritas de Lachâtre, mas também a profunda reflexão que ele fez a partir do trabalho de Allan Kardec.

Quero, com estas informações, destacar que a contribuição de Lachâtre à causa espírita foi até o momento atual subestimada inclusive pelo próprio movimento espírita, que nele enxerga apenas o artífice do principal evento publicitário do espiritismo em seu início: o Auto de fé de Barcelona.

Para mim, hoje, está plenamente justificada a minha antiga escolha de ter a figura de Maurice Lachâtre como patrono da editora, em virtude da evidente contribuição por ele dada à causa espírita.

Mas o espiritismo estava muito longe de ser a única ou até mesmo a mais importante área de interesse de Lachâtre. Escritor, lexicógrafo, jornalista, livreiro, editor, comerciante, empreendedor, banqueiro, agitador social, revolucionário, contestador por excelência. Vejo particularmente como a mais importante característica desse personagem o seu grande entusiasmo pela divulgação de tudo que lhe encantava no mundo.

Entre os temas pelos quais se apaixonou e dedicou grande energia em sua divulgação, podemos citar a homeopatia, o magnetismo, o espiritismo, as utopias sociais como o saint-simonismo, o fourierismo, o marxismo, o anarquismo e, sobretudo, talvez tenha sido essa a sua maior paixão, a educação do povo, mais especificamente do nascente proletariado francês, com toda a sua capacidade explosiva de mudança da sociedade.

Destaca-se, também, na sua personalidade, a imensa e ousada capacidade empreendedora, que o fazia dedicar-se de repente e intensamente a uma área completamente diversa das que já havia vivenciado, com frequência atuando em variadas atividades ao mesmo tempo.

Meu primeiro questionamento ao conhecer um pouco mais da atribulada vida de Maurice Lachâtre se refere à razão que o teria levado a se envolver com o espiritismo. Concluo, talvez pretensiosamente, que ele se empolgou pelo espiritismo por ser esta uma doutrina que não possuía clero, que não possuía dogmas e que não possuía um líder máximo à semelhança do papa da igreja católica; afinal, clero, dogmas e papa estavam para Lachâtre entre os grandes empecilhos para o desenvolvimento da liberdade do pensamento, seja este pensamento de ordem social, religiosa, filosófica ou científica. Para Lachâtre, o espiritismo poderia ser a Revolução social, que ele buscava, em seu aspecto religioso.

Além disso, como se pode concluir pelo título de sua obra – Une nouvelle philosophie, Lachâtre entendia o espiritismo sobretudo como uma filosofia, mas de bases científicas e consequências religiosas.

A par do cartesianismo e do positivismo que vigiam na ciência de sua época, também o espiritismo pretendia se basear nos fatos para deles inferir as leis que regem nosso mundo material, ou seja, o espiritismo também era, naquele momento, científico. Em tal contexto, a ciência ainda abrangia o estudo de todos os fenômenos da natureza, e as questões relacionadas a quaisquer fenômenos de ordem transcendente ainda estavam dentro da sua alçada.

Aqui, devo abrir um parêntese: ao contrário da visão que um homem de ciência nos dias de hoje tem do espiritismo e dos fenômenos relacionados ao transcendente, que foram relegados à lixeira da metafísica, da segunda metade do século 19 até o início da primeira guerra mundial, o meio acadêmico europeu se dividiu apaixonadamente na discussão sobre a realidade dos fenômenos espíritas.

O que, em nossos dias, soa para boa parte dos acadêmicos como verdadeira heresia foi objeto de estudo de personalidades como mme. Curie, William Crookes, Charles Richet, para citar apenas os cientistas agraciados pelo prêmio Nobel, e de mais uma de uma centena de consagrados pesquisadores europeus, como Russel Wallace, Oliver Lodge, Friedrich Myers, Gustave Geley. Acabei de mencionar apenas os que mais admiro, aqueles cujas pesquisas creio que ainda deveriam ser resgatadas pela contemporaneidade, em virtude da grande contribuição que poderiam dar à ciência, se não estivessem presentemente ignorados.

Fecho o parêntese aberto para imediatamente abrir novo parêntese.

Fico a imaginar se Maurice Lachâtre, espírita como foi, tivesse, após a sua morte, observado do outro mundo as mudanças por que passou a humanidade e, mais do que isso, quisesse documentar, como fez em sua obra “L’histoire de Papes”, até os dias atuais o desenvolvimento do pensamento humano, o que nos teria ele escrito.

Talvez ele nos dissesse que o mundo mudou e nele, hoje, não há mais espaço para as suas utopias, e muito menos ainda para a sua crença no espiritismo.

Mas poderia também, quem sabe, ter tido percepção semelhante à que eu possuo, de que as mudanças ocorridas no pensamento científico atual deixaram para trás algumas pontas que a humanidade precisará retomar a fim de que sejam resgatadas e unidas novamente para a nossa contemporaneidade, por absolutamente necessárias ao contínuo desenvolvimento do pensamento humano.

Talvez, Maurice Lachâtre tivesse esta minha opinião – quem poderá algum dia descobrir? – e achasse que a ciência tomou, de maneira dogmática, a opção de seguir seu caminho de desenvolvimento por uma vertente: curiosamente aquela que lhe restringia a área de pesquisa apenas para análise dos fenômenos objetivos. De um momento para outro, toda a pesquisa que houvera sido realizada acerca do fenômeno espírita e nos domínios do transcendente perdeu seu status científico e foi jogada para o limbo da metafísica, de onde passaria a ser analisada apenas como adereço em estudos sobre as excentricidades do comportamento humano, talvez apenas pela antropologia social.

Para que essa mudança de paradigma pudesse ser feita, era preciso sedimentar a estrutura científica de alicerces que justificassem a exclusão da dimensão espiritual dentre as hipóteses de explicação e análise dos fenômenos que ocorrem na dimensão material em que nos movemos. Isso, a meu ver, foi conseguido graças ao trabalho de dois dos maiores gênios que surgiram no século 19. É lógico que reduzo propositalmente a influência de todo um conjunto de ideias e pensadores, neste momento, com fins exclusivamente didáticos para expor meu posicionamento sobre este assunto.

O primeiro trata-se de Freud, que criou um sistema tão bem elaborado para descrever os fenômenos de ordem psicológica nos seres humanos, que logrou expulsar por cerca de um século a psyché, ou seja, a ‘alma’, dos conceitos da medicina, mais precisamente da psiquiatria. A teoria psicanalítica explicava a mente humana e suas relações com o mundo exterior aparentemente sem necessitar de um agente causador imaterial, a alma ou espírito, e satisfez temporariamente o segmento científico que se tornou hegemônico e que defendia uma ciência sem o transcendente.

O outro gênio humano que surgiu – para me utilizar de sua própria lógica científica –, no momento histórico preciso para que suas ideias se implantassem foi Karl Marx. A perfeita descrição do modelo econômico capitalista unida à criação de uma utopia socialista vestida de razoáveis bases científicas empolgou as ciências humanas e fez a história se tornar algo pretensamente previsível. O surgimento do materialismo-histórico, de maneira muito semelhante ao que ocorreu com o surgimento da psicanálise, satisfez temporariamente o segmento científico que defendia uma ciência sem o transcendente.

Não podemos negar o grandioso impulso que a ciência com bases materialistas teve no século XX, notadamente nas áreas tecnológicas, mas igualmente nos domínios da biologia, da medicina, da astrofísica, da física... Da mesma maneira, são evidentes também as imensas concessões éticas realizadas por cientistas, que muitas vezes se prestaram a servir mais ao mercado e ao lucro das corporações do que à ciência propriamente dita.

Mas não são apenas as questões éticas que me levam a reconhecer alguns dos descaminhos da ciência. Um século de hegemonia materialista na ciência já começa a apontar o esgotamento desse modelo escolhido.

De um lado, muito mais do que a falência econômica de um sistema de produção socialista como o soviético ou a incapacidade de Marx em prever os desvios e adaptações do capitalismo à nossa realidade atual, como tem sido apregoado pelos neo-liberais do momento sob o título de “fim da história”, a grande inconsistência do pensamento marxista, em minha opinião, se deu por ignorar a intensa e profunda necessidade de liberdade do espírito humano, que não poderá ser relativizada jamais.

E aí tenho de dar a mão à palmatória aos franceses e aos ideais da Revolução: a liberdade em primeiro lugar, porque o sentimento de liberdade é um vulcão incontrolável que jamais poderá ser sufocado sem que exploda em fortes comoções; a igualdade, porque o avanço do sentimento de justiça da humanidade não admite mais a exclusão de qualquer natureza; e a fraternidade, que é o único sentimento capaz de equilibrar a coexistência dos dois anteriores, pois a liberdade com fraternidade é que nos levará a rejeição das desigualdades de qualquer ordem, bem como a igualdade com fraternidade é que nos permitirá aceitar a convivência integralmente respeitosa com o diferente, sem impor-lhe quaisquer tipo de amarras, ou seja, deixando-o realmente livre. Portanto, a liberdade com fraternidade nos leva à igualdade, e a igualdade com fraternidade nos leva à liberdade. Esses valores continuam como desafios de um modelo político e econômico ainda a ser construído por toda a sociedade, e não apenas por cientistas, e muito menos ainda pelos políticos, que já perderam completamente a credibilidade para fazer qualquer revolução mais profunda e definitiva em nossa sociedade.

Então, de um lado, em minha opinião, afirmo que não houve propriamente o “fim da história”, mas o esgotamento de um modelo social de bases materialistas.

Por outro lado, os estudos atuais da ordem da psicologia vem demonstrando a independência da atividade mental sobre o cérebro: a psicoimunologia já constatou que emoções e pensamentos afetam fortemente a atividade dos sistemas fisiológicos; o estudo dos fenômenos psi já demonstraram que os cinco sentidos não são suficientes para explicar todas as formas de percepção do ser humano; as chamadas experiências de quase-morte, em pacientes com parada cardíaca, são mais uma comprovação de que a atividade mental continua no ser, apesar da morte clínica do corpo...

Estas e outras evidências estão a nos mostrar que o atual modelo de funcionamento da mente, tão brilhantemente elaborado por Freud, ainda não está completo e que a variável ‘espírito’ pode se encaixar com perfeição nesse novo modelo.

Como disse, estou, pretensiosamente, a divagar sobre o que teria Lachâtre, se hoje aqui estivesse, para nos falar de sua visão sobre as mudanças no pensamento da humanidade. Peço desculpas aos católicos aqui presentes e licença para externar meus pensamentos, mas fico a imaginá-lo a preparar a nova edição de sua “Histoire des papes”, escrevendo, neste ano de 2014, pela primeira vez simpático a um papa. Ah, certamente Lachâtre iria incluir o papa Francisco em sua obra. Desconfio fortemente que o Lachâtre estaria, apesar de todo o seu anticlericalismo, pela primeira vez simpático ao atual ocupante da cadeira de são Pedro. Mas acho que ele talvez pusesse uma nota em seu texto e afirmasse que o papa Francisco só se consagraria realmente como verdadeiro representante de Deus neste mundo, se realizasse, sim, e finalmente, a tão famosa profecia de são Malaquias e acabasse definitivamente com o papado, devolvendo a igreja para o povo, de onde ela jamais deveria ter se distanciado. Talvez fosse este o excelente epílogo que Lachâtre provavelmente colocaria em sua tão polêmica obra. Imaginem a “Histoire de papes” não tendo apenas início, mas finalmente encontrando o seu epílogo, para absoluta satisfação de Maurice Lachâtre.

E a ecologia? Quem poderia negar que os novos valores trazidos pela ecologia e o ideal da sustentabilidade não estariam entre as grandes preocupações desse homem, que se bateu contra o capitalismo sem imaginar em sua época que esse sistema poderia nos levar ao fim da humanidade?

Quem sabe estas minhas ilações, que divago na frente de todos vocês, pudesse ser não apenas minha? Segundo minha concepção espírita e a própria convicção religiosa de Maurice Lachâtre; bem que ele poderia estar aqui em espírito, a bater-se por uma nova ciência, por uma nova política, por uma nova religião, afirmando que o mundo em que ele viveu, seus valores e suas ideias ainda têm muito a nos ensinar e pode, sim, nos servir de inspiração para conquistas que estamos longe de alcançar.

Certamente, se Lachâtre aqui estivesse, e isto posso afirmar com convicção, sem divagações, ele estaria ainda sonhando uma nova utopia e nos inspirando na luta por um mundo mais justo.

Muito obrigado.

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