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Artigo do Jornal: Jornal Outubro 2020

Sobre o autor

Sônia Hoffman

Sônia Hoffman

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Edgar Morin apresenta, em seu livro Os Sete Saberes para a Educação do Futuro, a palavra simbiosofia. Essa expressão significa a sabedoria de viver junto e essa concepção nos remete diretamente para a exata proposta da ação inclusiva. Ou seja, compreender ou aprender com, construir em conjunto, intercambiar saberes, sentimentos, ideias e ideais, habilidades e desconhecimentos, desejo e vontade... Enfim, coparticipar efetivamente na edificação do convívio, mesmo sendo necessário o resgate ou a busca de algo ainda não elaborado, tornando possível muito daquilo pensado como impossível. Para isso, é preciso o desnudamento de preconceitos, o rompimento com previsões desconexas de fundamentos e razoabilidades, o despertamento de crenças e valores adormecidos ou escondidos no inconsciente.

A conquista dessa sabedoria, entretanto, deve emergir da reflexão e se consolidar na atitude justa, contextualizada, coerente, empática. A necessidade de substituição do binômio erro e acerto pela adoção da lógica do adequado e inadequado toma importância de tal magnitude, que a diferença se torna indissociável da possibilidade. O sujeito da inclusão, nessa sabedoria, é quem se sente ou está excluído; o sujeito excludente desaparece e se torna quem convida para a visibilidade, para a cena interativa real. A exclusão deixa de ser punição, imposição, sofrimento, para se tornar escolha, alternativa, evolução como legitimidade de melhoramento da capacidade de discernimento e descarte do vício, do tabu, da ignorância.

Com a simbiosofia, o pedestal do orgulho e do egoísmo é desfeito, o muro da indiferença social fica esfacelado e os caminhos para a marginalização do diferente tornam-se obsoletos em sua paisagem estéril, descorada e sofrida. Surgem, então, espaços arejados, coloridos, e passam a ser producentes de novas direções, diferentes modos de fazer algo, elaborações por outras vias tão válidas quanto aquelas presentes nos parâmetros de quem está acostumado a se conduzir pelo mesmo comportamento estereotipado ou considerado normal.

O poder de imposição de regras torna-se flexibilizado às condições de possibilidade daqueles participantes na interação, sem a sobrecarga de um ou a ausência colaborativa do outro, porque existe o entendimento da importância do desenvolvimento da arte do viver em crescimento, com progresso e sem pretensas ilusões. A ajuda acontece com um sentimento de fraternização, sendo retirada do auxílio todo o desejo consciente ou inconsciente de humilhação, desvalorização ou descrédito. O orgulho é substituído pela admiração e pela satisfação de um convívio participativo, honesto e equitativo, no qual o prazer da aprendizagem fala mais alto do que o medo em dar continuidade à permanência na ignorância, no ajuste a uma normalização nem sempre coerente e produtiva.

Um enfoque diferenciado de levar adiante a existência se constitui com mais tranquilidade, respeito e amorosidade, porque há o reconhecimento de uma escrita de novas páginas bem mais ricas, criativas, contributivas e despreendidas de intolerâncias ou toxicações ameaçadoras de um ego adoecido.

O desenvolvimento e a conquista da sabedoria em viver junto requer energia, disciplina, trabalho constante até que, aos poucos, se torne um processo natural e fluído, sentindo-se parceiro de viagem pelas rotas da vida com seus momentos de ampliação dos horizontes do saber pela simples vontade de ser feliz e querer a felicidade do outro pelo mesmo motivo.

A simbiosofia, neste patamar, assume então função extremamente importante na construção de um encontro de singularidades, de peculiaridades, no qual a inclusão, filosoficamente constituída, se apresenta espontaneamente e a atitude para com o próximo não se importa mais se é alguém da família sanguínea, social ou espiritual, mas necessariamente é alguém de possibilidades, em evolução, como cada um, e tão quanto da criação de Deus, como a própria pessoa se sente.

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