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Artigo do Jornal: Jornal Marco 2019

Sobre o autor

Pedro Valiati

Pedro Valiati

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Temos em Lucas 10:38 a 42 a passagem na qual o Cristo, passando por determinada aldeia, adentrou a casa de uma mulher chamada Marta, que o recebeu e tratou de deixar a casa da melhor maneira para o Cristo. Limpava, servia, varria, enquanto a irmã sentou-se ao lado do Cristo para escutar-lhe os ensinamentos. Fatigada de tanto trabalhar sozinha, Marta foi queixar-se diretamente ao Cristo acerca da “folga da irmã” dizendo:

- Dize-lhe que me ajude.

Em resposta o Mestre responde:

- Marta, Marta. Estás ansiosa e fatigada com muitas coisas, mas apenas uma é necessária. Maria escolheu a boa parte. E esta não lhe será tirada.

Para aqueles mais interessados no aspecto religioso da nossa Doutrina, a mesma narrativa encontra-se no cap. 16 do livro Primícias do Reino de Amália Rodrigues, e psicografia de Divaldo Franco.

Temos na passagem evangélica o caso de uma irmã, que sob os pretextos das convenções humanas da época, desgastava-se de maneira exagerada nos afazeres os quais colocava em primeiro lugar. Dava-se cargas e cobrava-se excessivamente, fatigando-se e, naturalmente, sem dar “conta do recado”. Por outro lado, a irmã Maria (sem relação com a mãe do Cristo ou Madalena) a qual aparentemente ajudava-lhe em outras ocasiões, percebeu o momento único na presença do Mestre, entendeu a importância dos ensinamentos, bem como os benefícios dos mesmos, e soube dar a devida prioridade e “aproveitar” a ocasião, soube deixar os afazeres repetitivos e perfeitamente adiáveis em detrimento da busca da própria felicidade. Deixou as tarefas cotidianas regulares de lado e aceitou o convite e a oportunidade oferecida para o momento feliz. Quem somos? Marta ou Maria?

O mundo moderno exige-nos por demais, se não soubermos colocar os “freios” sociais e profissionais, se não tivermos a sensibilidade de vislumbrar as possibilidades de refazimento da alma, seremos fatalmente a Marta. Indubitavelmente nos colocaremos responsabilidades excessivas, cargas mais pesadas que a nossa capacidade de suportar. Levando-nos fatalmente as angústias, decepções e o vazio, consequência dos próprios atos. Por vezes, sob a batuta do cansaço excessivo e desnecessário, pela busca incessante de uma posição social ou profissional, lesamos o próprio corpo e mente.

Fatigamos a matéria e “esvaziamos” o espírito ávido de conteúdo. Colheremos certamente no futuro as consequências das escolhas, como em todas as situações. Perceberemos pelas doenças recorrentes ao excessivo desgaste da máquina corpórea, pelo aparelhamento irresponsável do corpo, as dores e a necessidade compulsória do descanso. Isso se não desenvolvermos doenças crônicas que nos coloque de forma irrevogável sob novas e infelizes perspectivas. A dor é um artifício divino, baseado nas nossas inconsequências.

Esta, ainda não é a dor mais cruel imposta àqueles que não sabem equilibrar os momentos da própria existência. Se temos família, a dor de ver o tempo passar e os filhos crescerem à margem da nossa convivência, a percepção da independência adquirida sem a nossa participação efetiva, a fuga dos momentos importantes dos mesmos certamente nos levará a arrependimentos cruéis. A história não contada, a brincadeira não brincada, o passeio não realizado, as férias eternamente adiadas, o beijo e o abraço não dados.... Ah! A dor do afeto necessário e não usado. A culpa pelas escolhas mal feitas e as quais jamais retornarão. A troca irracional dos momentos de amor e convívio com a família, por uma promoção profissional. Não há aumento de salário que justifique a perda dos melhores momentos da vida. Os nossos filhos não precisam da banda larga de internet mais veloz, do celular com maiores funcionalidades, dos brinquedos mais modernos e os milhares de cursos que inventamos para os mesmos sob a desculpa de preparar-lhes para o mundo. Se pudessem escolher, prefeririam a convivência com os pais. Um dia, eles irão crescer, e se formos “Marta”, nos restará apenas guardar em nosso peito o arrependimento acerbo e a paciência em aguardar e direcionar o amor não dado a eles aos netos.

Não queiramos nos fazer presentes quando não mais formos necessários.

Sejamos Maria! O fato das coisas não estarem indo bem no trabalho não significa que tenhamos que brigar com o cônjuge. O fato do filho não ter as melhores notas não impossibilita a ida a sorveteria. O fato de estarmos fatigados, esgotados por conta do trabalho não nos impede de abraçar e contar-lhes histórias fantásticas. Se sabemos que no outro dia já acordaremos esgotados, por que não dar um motivo justo para tal? Os filhos e nós mesmos agradeceremos por isto. Precisamos de momentos felizes e nossos filhos precisam de nós. Ou trazemos para nós as rédeas da nossa vida e colocamos as nossas prioridades, ou as nossas prioridades colocam as rédeas na nossa vida.

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