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Artigo do Jornal: Jornal Novembro 2014
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A terceira parte de O Livro dos Espíritos apresenta de forma transparente seu conteúdo profundamente social. Quando discute as leis de sociedade, de reprodução, de destruição, de igualdade, de liberdade, de justiça; quando discorre sobre o trabalho, o repouso, a propriedade; quando assegura que a desigualdade de condições sociais não é obra de Deus, mas sim dos homens (1), que todos somos iguais, com o mesmo princípio e a mesma destinação, a Doutrina dos Espíritos revela claramente o seu objetivo social, seu propósito fundamental de auxiliar o homem (encarnado e desencarnado) a constituir, o mais brevemente possível, uma sociedade intelecto-moral (2), baseada na lei de justiça, amor e caridade.

Essa afirmativa de que todos somos iguais se apoia na mais absoluta justiça, pois confere a cada criatura o direito de ter as mesmas oportunidades para atingir o mesmo objetivo: a completude em sua trajetória física, etapa extremamente importante para a efetivação de seu avanço intelectual e moral.

Atualmente percebe-se a grande epidemia que se apoderou da humanidade – o interesse pessoal, classificado como o indício mais característico da nossa imperfeição. Efetivamente, esse sentimento egoístico que faz com que se coloque em primeiro lugar, e em geral a qualquer custo, a satisfação de anseios e desejos pessoais de todo tipo, tem sido a tônica de praticamente todas as atitudes assumidas pelo ser humano.

De acordo com a doutrina, é no interesse pessoal que se funda o egoísmo, “do qual se deriva todo o mal; estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos existe o egoísmo”. Mas, a doutrina também nos assegura que “o egoísmo se enfraquecerá com a predominância da vida moral sobre a material” (3).

Contudo, por ora, o interesse pessoal tem suplantado o senso moral que, na verdade, jaz dentro de todos os seres, mesmo que ainda débil e frágil; e isso se dá particularmente porque o progresso intelectual mais avançado muitas vezes se arvora direitos e supremacia sobre não somente bens e regalias, mas inclusive sobre pessoas. A criatura sente-se superior e, de algum modo e por meios frequentemente escusos e até ilícitos, detentora de um poder acima da lei humana, sem se preocupar ou atentar para a lei divina...

Diante do quadro vivencial da humanidade e da estrutura social reconhecidamente por nós estabelecida no decorrer dos séculos, em que a desigualdade social e a violência de todo tipo chegam a níveis assustadores, cabe a nós, espíritas, fazermos uma reflexão acurada dessa terceira parte, onde Allan Kardec didaticamente catalogou e comentou o que ele denominou de “As Leis Morais”. Com essa reflexão, veremos que elas são plenamente concordes com os ensinamentos de Jesus, selecionados por Kardec para a elaboração de O Evangelho segundo o Espiritismo.

Essas leis, que nada mais são do que as leis naturais, abrangem a complexidade das nossas relações de forma integral: a nossa relação com Deus, com o próximo, com toda a criação; por conseguinte, abrangem os nossos deveres e direitos e o que podemos entender como o nosso aprimoramento socio-ético-moral espiritual, como seres imortais universais que somos, destinados a nos tornarmos coparticipes na obra da criação (4) – o que de certa forma já somos, cabendo-nos urgentemente analisar de que maneira estamos desempenhando essa nossa atribuição...

“Que o princípio da caridade e da fraternidade seja a base das instituições sociais, das relações legais de povo para povo e de homem para homem, e este pensará menos em si mesmo” (3).

Em decorrência disso tudo que já recebemos como esclarecimentos, não somente através da nossa doutrina, mas de há muito tempo, sob outras formas e denominações, podemos compreender que efetivamente firmar nossos valores e escolhas sobre o interesse pessoal egoístico, mal compreendido, só pode trazer resultados dolorosos em futuro próximo e, muitas vezes, até mesmo presentemente. A história da humanidade, antiga e contemporânea, tem-nos comprovado essa realidade, mediante a constatação das atitudes arbitrárias e autoritárias, que apenas deixam um rastro de dor, miséria e desesperança – além do fato de que, para esses que assim procedem, haver obrigatoriamente a necessidade de correção e refazimento, na maioria das vezes com muito sofrimento...

No entanto, entre entender a teoria e colocá-la em prática há uma distância que ainda precisa ser vencida – um caminho difícil a ser percorrido que certamente vai requerer de nós, humanidade encarnada e desencarnada, um esforço persistente, individual e coletivo, para superarmos essa etapa; e isso só conseguiremos por meio de uma educação esclarecida e continuada em todos os campos de ação e do conhecimento.

1- O Livro dos Espíritos, questão 806

2- Obras Póstumas – Cap. As Aristocracias

3- O Livro dos Espíritos, questões 913 a 917

4- O Livro dos Espíritos, questão 132

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