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Artigo do Jornal: Jornal Junho 2014
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Quando paramos para refletir a respeito de fatos e situações – o que se faz cada vez menos – em geral nos assustamos com o rumo que as coisas vêm tomando, com as ações que as pessoas vêm praticando.

A humanidade chega ao século XXI com um farto legado moral, intelectual, tecnológico e científico que, pretensamente, deveria lhe proporcionar as melhores condições possíveis, em nosso estágio evolutivo, de constituir e manter uma sociedade relativamente mais equilibrada, tanto em termos materiais, quanto espirituais.

O que já acumulamos de conhecimento e experiência, mesmo ainda incompletos e, em muitos pontos, precários, já poderia nos permitir viver com mais segurança e tranquilidade. São milênios de ensinamentos, recomendações e esclarecimentos – alguns enigmáticos, alguns envolvidos em mistérios, lendas, fábulas, parábolas... Mas alguns absolutamente transparentes: “a cada um segundo suas obras”.

Hoje, com os meios de comunicação globalizados, possivelmente apenas um baixo percentual da humanidade possa pretextar ignorância, completa ou em grande parte – são estes, geralmente tribos, grupos, comunidades, vivendo em regiões muito inóspitas, de muito difícil acesso e condições extremamente difíceis. Todavia, a maioria de nós – mesmo aqueles estagiando nas mais baixas e prejudicadas faixas sociais, a braços com uma situação financeira e econômica deficitária – dispomos de informação suficiente para melhor avaliar nossas intenções e procedimentos. Contudo, muito provavelmente, o que nos falta é formação, compreendendo-se que informação é uma coisa e formação é outra bem diferente, significando educação...

O que se tem visto noticiado em todo tipo de mídia é a corrupção grassando em todos os níveis, consumindo bilhões em numerário e prejudicando milhões de criaturas; é a violência crescente, de maneira cada vez mais absurda e inesperada, envolvendo pessoas que deveriam ser consideradas como protetoras; é a indiferença daqueles empossados em cargos que lhes permitiriam, de uma forma ou de outra, fazer alguma coisa; é a omissão daqueles que se acovardam face aos conceitos hipócritas que a sociedade de aparências e falsos valores impõem.

O que se tem visto é a derrocada do respeito, da valorização e do amor ao próximo e a instituições basilares, como a família por exemplo. O que se tem visto é a exaltação do ego, da vaidade, da sensualidade exacerbada e mal dirigida, do ter para ter mais e mais e sempre mais – ter mais coisas, ter mais dinheiro, ter mais poder, ter mais prazer; e isso a qualquer custo...

Bem nos advertiram os Espíritos quando afirmaram que“é preciso que haja o excesso do mal, para fazer o homem compreender a necessidade do bem e das reformas” (LE 784). Mas, pergunto – qual o excesso necessário? Será preciso vivenciarmos situações ainda mais dolorosas, mais degradantes, mais aterrorizantes?

Allan Kardec, em Obras Póstumas, no capítulo Credo Espírita, nos esclarece que: “os males da humanidade provêm da imperfeição dos homens; pelos seus vícios é que eles se prejudicam uns aos outros. Enquanto forem viciosos, serão infelizes, porque a luta de interesses gerará constantes misérias” . E continua: “por melhor que seja uma instituição social, sendo maus os homens, eles a falsearão e lhe desfigurarão o espírito para a explorarem em proveito próprio” . Quanta lucidez, quanta compreensão com relação às nossas fragilidades e quanta atualidade – poder-se-ia dizer que ele escreveu isso hoje, há poucos minutos...

As consequências de tudo isso são frequentemente desastrosas, acarretando males e injustiças humanas sem conta. Retomamos Kardec, em outro capítulo de Obras Póstumas, quando declara: “as convulsões sociais são revoltas dos Espíritos encarnados contra o mal que os acicata, índice de suas aspirações a um reino de justiça, pelo qual anseiam, sem, todavia, se aperceberem claramente do que querem e dos meios de consegui-lo” . E não podemos deixar de concordar com nosso mestre espírita quando, em nome de reivindicações sociais justas, assistimos a depredações, ataques, invasões, saques, brigas e agressões de todo tipo...

Deolindo Amorim, no livro Análises Espíritas, capítulo 19, comenta com muita propriedade: “... o Espiritismo prescreve, todavia, solução pacífica, condicionada ao progresso moral. Pouca gente, porém, sabe o que diz a Doutrina Espírita acerca do debatido e complexo problema social – é o aspecto menos estudado no Espiritismo (...) A reforma social exige, antes de tudo, a reforma do indivíduo. Nenhuma transformação violenta resolve o problema do equilíbrio social sem obter, primeiramente, o progresso moral do espírito (...) Ainda que se substitua a estrutura da sociedade ou se dê nova organização ao Estado, sem elevar o nível moral das massas, haverá os mesmos choques” .

Finalizo essas reflexões mais uma vez com Kardec: “o reinado da solidariedade e da fraternidade será forçosamente o da justiça para todos, e o da justiça será o da paz e da harmonia entre os indivíduos, as famílias, os povos e as raças” .

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