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Artigo do Jornal: Jornal Fevereiro 2019

Sobre o autor

Cláudio Conti

Cláudio Conti

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       Cura espiritual é um tema fascinante e envolto em mistérios e misticismos dos mais variados matizes e, por isso, não é um tema fácil de ser abordado por se tratar da esperança e de crenças mais profundas do ser. Em decorrência da ânsia pela cura por parte do enfermo e da falta de conhecimento sobre esta questão, muitos equívocos são perpetrados ao longo do tempo.

       Diante deste cenário, muitas vezes, o indivíduo se empolga e se deixa levar por falácias embutidas em muitos discursos e que são disseminadas com as mais variadas intenções, analisando a informação segundo o próprio interesse, sem considerar a totalidade da questão. Via de regra, se busca o caminho mais fácil e, com isso, a pessoa, seja fragilizada pela condição de enfermidade em que se encontra ou devido a atração pelo misticismo, se sujeita à práticas que podem ser inócuas ou, até mesmo, perniciosas para a sua saúde física e mental.

       As curas espirituais são factíveis e Kardec, em suas pesquisas, identificou a possibilidade de se alcançar a cura através da mediunidade. Apesar de um pouco longo, é interessante, aqui, reproduzir uma parte significativa do texto: “Diremos apenas que este gênero de mediunidade consiste, principalmente, no dom que possuem certas pessoas de curar pelo simples toque, pelo olhar, mesmo por um gesto, sem o concurso de qualquer medicação. Dir-se-á, sem dúvida, que isso mais não é do que magnetismo. Evidentemente, o fluido magnético desempenha aí importante papel; porém, quem examina cuidadosamente o fenômeno sem dificuldade reconhece que há mais alguma coisa. A magnetização ordinária é um verdadeiro tratamento seguido, regular e metódico”[1].

       Contudo, Kardec vai mais além em sua busca de entendimento e elabora várias perguntas para os espíritos responsáveis pelo esclarecimento da humanidade; dentre elas, importa ressaltar [1]: Pergunta: 8ª Podem obter-se curas unicamente por meio da prece? Resposta: "Sim, desde que Deus o permita; pode dar-se, no entanto, que o bem do doente esteja em sofrer por mais tempo e então julgais que a vossa prece não foi ouvida.”

       Desta forma, fica claro que a cura por si mesma reside no próprio enfermo, e não em qualquer outra origem, sejam médiuns, práticas ou locais. Preconizar o contrário é demonstrar limitação no conhecimento ou má fé. Em ambos os casos, é necessário o aprimoramento pessoal.

       Com a disseminação de que as curas são realizadas por outrem, enfermos incautos e seus familiares são presas fáceis para os charlatães. Diante de falsos médiuns ou médiuns ignorantes que são desmascarados, surge a pergunta: Como curas são realizadas através deste ou daquele médium? A resposta, contudo, é muito simples, pois, conforme já dito, a cura reside no próprio enfermo e não em qualquer prática exterior.

       Interessante que isto não é claro nem mesmo no meio espírita, no qual circula muita informação tendenciosa, mudando o foco da atenção, que deve ser a transformação pessoal. Neste ambiente distorcido, surgem os “médiuns e centros fortes” com práticas das mais diversas, reproduzindo os locais onde ocorreram os ditos “milagres”, tal qual imagens que choram sangue ou aparições.

       O melhor médium curador que já esteve entre os encarnados na Terra e que, sobre o qual, não existe qualquer suspeita, foi Jesus. A análise de seu “modus operandi” deve servir para esclarecer sobre a questão das curas espirituais e é na Codificação Espírita que encontramos material de estudo, pois, Kardec analisou os “milagres de Jesus” [2]. Apresentaremos três exemplos.

 

 

1) Perda de sangue

 

       Jesus caminhava em meio a uma multidão e varias pessoas o tocavam. Nesta ocasião, uma mulher que padecia de hemorragia e que já havia procurado vários médicos, toca nas vestes de Jesus que, por sua vez, percebeu algo em especial, diferente de todos os outros, pois, neste toque, sentiu um fluxo de fluido saindo dele em direção à uma pessoa específica.

       O interessante deste relato é que Jesus ficou curioso em conhecer quem era responsável pela atração do fluido que expeliu naturalmente mediante o estímulo que recebera. Olhando ao seu redor, perguntou aos discípulos quem o havia tocado; a mulher, cheia de receio, se apresentou, pois sentiu o efeito imediato daquele fluido em sua organização física-perispiritual. Jesus a olhou e disse: “sua fé te curou”.

       Pelo relato, conclui-se que Jesus não pode ter “impregnado” o fluido com qualidades definidas, pelo simples fato de ele não saber quem o havia tocado e as mazelas que a pessoa possuía.

 

2) O cego de Betsaida

 

       Neste relato, diferentemente do anterior, verifica-se uma ação intencional de Jesus em imprimir qualidades específicas ao fluido.

       No procedimento adotado para este caso, Jesus colocou saliva nos olhos de um cego e, depois, impôs as mãos sobre ele. Contudo, como o homem não havia recobrado a visão completamente, Jesus posicionou as mãos nos seus olhos e, então, o cego passou a enxergar.

       O procedimento de cura adotado é mais complexo do que o anterior, pois foi necessário uma ação local (saliva nos olhos), outra mais abrangente no ser (imposição das mãos) e, após uma primeira avaliação do resultado obtido, outra ação local (imposição das mãos na região dos olhos).

       Jesus utilizou da ação fluídica intencionalmente, com qualidades específicas e de formas variadas.

       

3) O paralítico da piscina

 

       No encontro com um paralítico, após uma primeira avaliação, Jesus, muito simplesmente, pronunciou um comando verbal: “Levanta-te, toma o teu leito e vai para sua casa”. Diante destas palavras, o paralítico se levantou e andou.

       Apesar de parecer milagre, Kardec apresenta uma explicação para o caso, no qual a chave para esta questão está no que Jesus disse ao paralítico antes do comando para que andasse: “Meu filho, tem confiança; perdoados te são os teus pecados”.

       Kardec explica que o paralítico em questão se encontrava nesta condição em decorrência de faltas cometidas em outras encarnações. Jesus, então, acessa a condição espiritual do paciente e constata que ele já havia cumprido o que lhe cabia, estando, desta forma, por assim dizer, quite com a Providência, sendo liberado do processo educativo no qual se encontrava.

       Baseado nestes três casos em que houve sucesso na cura de doentes sofrendo de enfermidades e motivos diferentes, percebe-se, claramente, que os procedimentos não foram os mesmos. A cura utilizando fluidos é mais complexa do que a simples administração de um “medicamento” de forma ritualística e, principalmente, a postura do paciente é fundamental para viabilizar a cura.

       Diante das curas realizadas por Jesus, em que sempre afirmava que a fé do paciente é que o havia curado, pode-se perguntar: O quanto é ação do médium (passista ou curador) e o quanto é ação do paciente?

       Cabe, portanto, ao médium o aprimoramento constante do entendimento da mediunidade e dos processos envolvidos na manutenção da saúde. Deve, também, ter em mente que os fluidos sofrem a ação do pensamento, desta forma, no intuito de configurar o fluido, que emanará de si mesmo, com propriedades curativas, deverá manter este pensamento recorrente, isto é, deverá cuidar da própria saúde, desenvolvendo hábitos salutares em todos os campos da sua vida e em todos os dias da semana, e não apenas nos dias da atividade mediúnica.

       Nas passagens de Jesus envolvendo cura, ele reitera aos pacientes que foi a fé que eles traziam em seu imo que os havia curado, na qual atribuía a maior importância. Assim, uma postura de fé do paciente é fundamental para alcançar a cura. Todavia, com a fé fortalecida diante das dificuldades que encontra e no contato com a Doutrina Espírita no sentido de desenvolver um sistema adequado de crenças e valores, mesmo que não alcance a cura do corpo, alcançará a cura da alma.

       A necessidade de se estabelecer o aprimoramento pessoal é fundamental para alcançar a cura da alma - saúde mental. Esta cura é garantida desde que haja o esforço do paciente; a cura do corpo, apesar de desejada, passa a ser secundária ou consequência.

       Sendo o espírito encarnado o mantenedor da estrutura corporal, mesmo que haja um processo de cura de fora para dentro, isto é, mesmo que um espírito como Jesus “force” o restabelecimento da saúde, após determinado tempo, que poderá ser curto ou longo, dependendo das mazelas do espírito, a enfermidade se restabelecerá. Portanto, sem a adequação psíquica não há saúde duradoura. Kardec chegou a esta conclusão na sua análise da passagem de Jesus em que há o relato de seu encontro com dez homens que sofriam de lepra.

       Os dez leprosos rogaram a piedade de Jesus e foram orientados a se mostrarem para os sacerdotes da época. Durante o caminho, eles se viram curados, contudo, apenas um deles retornou para agradecer e render graças. Ao ser informado que os outros nove não retornaram, Jesus disse àquele que estava diante dele: “Tua fé te salvou” [2].

       Kardec analisa este relato da seguinte forma: “Acrescentando: ‘Tua fé te salvou’, fez ver que Deus considera o que há no âmago do coração e não a forma exterior da adoração. Entretanto, também os outros tinham sido curados. Fora mister que tal se verificasse, para que ele pudesse dar a lição que tinha em vista e tornar-lhes evidente a ingratidão. Quem sabe, porém, o que daí lhes haja resultado; quem sabe se eles terão se beneficiado da graça que lhes foi concedida? Dizendo ao samaritano: ‘Tua fé te salvou’, dá Jesus a entender que o mesmo não aconteceu aos outros” [2].

       O trabalho de estabelecimento da cura de qualquer enfermidade, seja psíquica ou física, demanda a transformação pessoal para que realmente possa ocorrer, caso contrário, tal cura poderá ser apenas aparente, retornando após determinado tempo. O mais indicado, portanto, é a profilaxia, onde se trabalha pela transformação antes que haja o estabelecimento de enfermidades educativas, nesta condição, o sofrimento é minimizado e a tarefa muito mais fácil.

       É importante lembrar que todos, sem excessão, são capazes de movimentar a espiritualidade superior quando se trabalha pelo próprio aprimoramento.

 

Referências

1. Allan Kardec. O Livro dos Médiuns, Cap. XIV, item 7.

2. ___; A Gênese: os Milagres e Predições segundo o Espiritismo, cap. XV.

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