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Artigo do Jornal: Jornal Maio 2019

Sobre o autor

Cláudio Sinoti

Cláudio Sinoti

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Nas proximidades do lago de Genebra, na Suíça, encontra-se uma escultura que chama a atenção por sua singularidade. Ela retrata um homem sentado em um banco, cabisbaixo e com as mãos apoiadas sobre os braços. Mas o que mais impressiona é que o espaço que medeia a cintura e a cabeça encontra-se vazio. Não há peito, coração, estômago, barriga... há apenas o vazio, através do qual se pode vislumbrar a paisagem do outro lado.

Vazio! É bem provável que essa sensação seja a força de atração para a identificação de tantas pessoas com a obra do romeno Albert György, chamada Melancholie.  É esse um retrato simbólico de um dos sentimentos mais profundos dos tempos modernos, e não será espanto se a era atual for classificada como “era do vazio existencial”.

Na prática diária de atendimento terapêutico tem sido comum escutar frases como: "Não sinto mais prazer em viver..." (...) "Qualquer hora dessas faço uma loucura!" (...) "Será que isso nunca vai acabar? Já tentei de tudo..." (...) "Eles não se importam, pensam que sou de ferro". Essas e outras formas de expressão são sinais de que o ser humano, de uma forma geral, encontra-se intensamente insatisfeito: consigo mesmo, com suas relações e com a própria vida. A patologia da descrença vai ganhando campo, e para muitos parece não haver remédio capaz de solucionar. Será?

São muitos os que buscam os remédios psiquiátricos nos últimos tempos, e dentre os mais vendidos nas últimas décadas encontramos os antidepressivos. Grande parte deles tem como princípio inibir a captação de serotonina, tornando esse importante neurotransmissor mais disponível para o organismo. A serotonina está ligada à sensação de bem-estar, e por isso mesmo sua deficiência é um dos sintomas dos processos depressivos. O problema não é a prescrição pontual e diagnosticada dos antidepressivos, mas a generalização da sua utilização, sendo em muitos casos realizada através da automedicação, o que gera graves riscos para seus usuários. Mas as medicações não produzem milagres, tampouco a transformação psicológica dos pacientes. Isso somente se obtém a custo de muita reflexão e mudança de atitudes, partes importantes do processo de autoconhecimento.

Isso nos leva a questionar: o que está acontecendo com a mulher e o homem modernos? Qual o motivo dessa sensação de vazio e falta de sentido que tem acometido tantas pessoas? O que podemos fazer para mudar esse panorama?

A falta quase generalizada de bem-estar sinaliza que estamos buscando em fontes equivocadas o sentido da existência humana, e que temos que criar novos caminhos para saciar a “sede de sentido”. Tem-se investido demasiadamente na busca de prazeres e diversões, e muito pouco ainda em realizações que preencham a vida de significado. O crescimento econômico e tecnológico tem levado o ser a buscas externas, mas enquanto se encontre vazio em si mesmo, o indivíduo não consegue relacionar-se de forma saudável com o que se encontra ao seu redor.

Sendo inevitável o caminho do autoconhecimento como “remédio interno” para as dores da alma, passo essencial é estimular que “olhar para si” seja algo natural, desde a tenra infância, para que se crie o hábito salutar de auto-observação. Proporcionar que as crianças falem das suas emoções, dos seus conflitos, para que junto com seus pais e educadores busquem saídas e alternativas para os seus desafios. As narrativas de contos e mitos são excelentes recursos para comunicação com a psique infantil (e também a madura), possibilitando extrair preciosas lições de ética e vida no tocante a enfrentamentos existenciais.

Na falta desse rico mundo simbólico, a criança vai buscar nos ídolos modernos seus referenciais, muitas vezes encontrando indivíduos em conflito consigo mesmos, sem compromisso com a ética, que apenas desejam fama e poder, acarretando sérias consequências para a formação da personalidade infantil.

Na era moderna os youtubers têm se tornado celebridades. Isso é preocupante porquanto muitos são patrocinados por indústrias e empresas preocupadas em vender seus produtos, e não em construir valores. Ademais, alimenta-se coletivamente a falsa noção de que o ser vale pelo que pode possuir, pela quantidade de seguidores e amigos virtuais que consegue amealhar, por seu poder de influenciar o comportamento dos grupos nos quais transita. O ser em si mesmo vai ficando à margem do seu significado profundo, e o que é sinal de doença passa a ser celebrado como conquista pela massa “normótica”.

Aliada da educação emocional e psicológica, a meditação tem-se mostrado amplamente eficaz na diminuição da ansiedade e melhoria do sistema imunológico. Pesquisas científicas como as do dr. Richard Davidson1, comprovam amplamente os benefícios da prática, antes associada ao misticismo, mas que agora ganha aval acadêmico. O dr. Davidson conseguiu demonstrar a diminuição dos níveis de estresse daqueles que se dedicam à prática de forma regular. Não será importante seguir formas mágicas e ritualísticas, mas encontrar a técnica que melhor se adeque ao dia a dia, para inclusão como prática diária de saúde.

E dentre os valiosos recursos que o ser humano dispõe para o seu autoencontro, não se pode esquecer do poder da oração, que assim como a meditação teve seu mapeamento cerebral realizado, constatando seus efeitos benéficos para a saúde e bem-estar. Independente da crença que se vincule, toda relação saudável com a divindade é válida, desde que pautada no respeito aos diferentes credos e expressões, que inclua também os que não são portadores de crença alguma.  

O ser humano faz parte de um projeto infinito, expressão de uma vontade divina, e não pode se contentar em viver uma vida vazia e puramente sensorial. Precisa aventurar-se ao encontro de si mesmo. Mas como ensinava o filósofo Soren Kierkgaard “Aventurar-se causa ansiedade, mas deixar de arriscar-se é perder a si mesmo... E aventurar-se no sentido mais elevado é precisamente tomar consciência de si próprio.”

Possuímos todas as condições de reverter esse triste quadro da Era do Vazio Existencial, preenchendo nossas vidas com sentido. Para começar, basta a vontade sincera de transformação, seguida de atitudes pautadas na ética e no amor, para que finalmente construamos as bases de uma nova civilização, na qual os indivíduos se amem, respeitem e sempre busquem se aperfeiçoar enquanto seres humanos.

Quem sabe assim nossas novas esculturas não precisem expressar mais o vazio e a melancolia, mas a força do amor que conduziremos em nossos seres. 

 


1 O Estilo Emocional do Cérebro. Ed. Sextante.

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