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Artigo do Jornal: Jornal Fevereiro 2019

Sobre o autor

Iris Sinoti

Iris Sinoti

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Não foram poucas as vezes que ouvi em reuniões doutrinárias que “nós brasileiros não temos “carma” com guerras”, sendo é claro essa afirmação uma observação positiva. Mas, tenho refletido nos últimos tempos sobre o que vem a ser “carma” e “guerra” nesse sentido específico.

Nós brasileiros somos uma bela mistura de raças – os índios nativos, os brancos lusitanos e os negros africanos – e povoamos grande parte dessas terras prometidas ao trabalho redentor de aqui construir a Pátria do Evangelho.

Ao invadirem essas terras, no chamado Novo Mundo, os portugueses encontraram os seus habitantes livres – os Índios - que não estavam de passagem, visto que aqui residiam, criavam seus filhos e tinham seus sistemas de subsistência; resumindo, existia vida antes da chegada dos portugueses em nossas terras. Esses povos, que viviam às margens de rios e nas matas, ecologistas por natureza, logo de início travaram uma batalha com as bactérias mortais do homem branco, seguida de outras lutas intensas para tentar proteger suas matas e riquezas, assim como pela própria continuidade de seu povo, contra a escravização indígena.

Nesse panorama, vemos que o início da nossa história enquanto povo brasileiro, se não é marcado pelo “carma”, o é pela “guerra”, pois nossos ancestrais indígenas morreram em lutas injustas para garantir seu lugar no solo onde haviam nascido e se desenvolvido. Conforme assinala Joanna de Ângelis, “somos herdeiros de nós mesmos”, e não estamos reencarnados aqui nesse torpe momento sem um objetivo para o nosso processo evolutivo. Por isso mesmo não podemos deixar de reconhecer que eles viveram, morreram e lutaram para que, em algum momento, pudéssemos aqui reencarnar e cumprir a nossa história e a dessa Pátria.

Somos o resultado da desconstrução de uma matriz que perde sua língua, sua cultura, sua terra, seu lugar, e segundo os dominadores nem mesmo alma eles tinham o direito de possuir... Nós o povo brasileiro nascemos da perda do índio, da dor do negro do anseio de poder do europeu. Seria esse o nosso “carma”? Será que precisamos resgatar a história perdida dos nossos antepassados e devolver para nós o que tiramos de nós?

Precisamos repensar nossa postura e nossa fala, não só no aspecto histórico, mas principalmente nos conceitos e postulados da Doutrina Cristã dos Espíritos. O impacto do “descobrimento” para os nativos da nossa terra foi o genocídio de milhões de índios, dizimados até quase o total extermínio em verdadeiras guerras de covardia, que não só nos deveria envergonhar como provavelmente maculou a nossa história. Isso será suficiente para pensamos na Lei de Causa e Efeito?

Intitulamo-nos Cristãos e não conseguimos abraçar o outro como irmã e irmão e repetindo a história negamos até a humanidade desse outro diferente dos meus padrões, esse outro rotulado de primitivo que provavelmente é inferior a mim.

Esse outro não só e necessariamente o índio, mas todo aquele que não comungue dos "meus" ideais que não concorde com aquilo que acredito. Ora, o que vivenciamos no momento atual no globo terrestre em nada contraria a Lei de Causa e Efeito, pois, as nossas guerras internas não travadas expõem nossas mazelas e misérias, anunciando que chegou o tempo da colheita. Afinal, como nos propõe Joanna de Ângelis: "É possível que uma experiência fracassada ou danosa, funesta ou prejudicial se manifeste a outras pessoas como ao seu autor através dos resultados, após a próxima ou passadas algumas reencarnações. Esses resultados, no entanto, chegarão de imediato ou em mais tardio tempo. O certo é que virão em busca da reparação indispensável." (Plenitude) 

Será que realmente estamos na segura posição de afirmarmos que não temos comprometimento com tudo isso? Será que agora não é o exato momento de nos reconhecermos por "Muito nos amarmos?" A nossa prática Cristã é efetivamente o cumprimento dos ensinamentos do Mestre Jesus?

A Pátria do Evangelho chora e estertora diante de todos nós com as dores dos seus primogênitos, dores essas vividas no passado e reativadas no presente. O que estamos fazendo com os talentos a nós confiados? 

Voltando às minhas reflexões do momento, acredito que esse é o momento de entrarmos em guerra com os nossos monstros internos e só assim podermos diminuir e até mesmo um dia afirmarmos com a convicção do verdadeiro Cristão: Não, nós não temos carma com Guerras externas, pois não precisamos projetar no outro, meu irmão e irmã os monstros que habitam o meu ser. 

Afinal, Îandé Cristãos!

 


1 Nós (somos) em Tupi-guarani. Transcrição de Alexandre de Souza Barbosa.

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