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Artigo do Jornal: Jornal Fevereiro 2014
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É evidente que, se não fossem os preconceitos sociais, pelos quais se deixa o homem dominar, ele sempre acharia um trabalho qualquer, que lhe proporcionasse meio de viver, embora se deslocando da sua posição. Mas, entre os que não têm preconceitos ou os põem de lado, não há pessoas que se veem na impossibilidade de prover às suas necessidades, em consequência de moléstias ou outras causas independentes da vontade delas?

Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo, ninguém deve morrer de fome.

Questão n° 930, de O Livro dos Espíritos

Há indivíduos indolentes e indisciplinados que vi­vem em situação difícil por sua própria culpa. Mas há, também, os que experimentam amargas privações de­correntes de circunstâncias alheias à sua vontade:

O doente sem recursos, o velho sem abrigo, a criança abandonada, o operário desempregado, o homem marginalizado em virtude de problemas de comportamento.

Imagina-se que providências a respeito do assunto são de alçada exclusiva do Governo, chamado ao atendi­mento da população carente e à erradicação da misé­ria.

No entanto, a sociedade somos nós, cidadãos que a compomos. O Governo é apenas uma representação. Não pode­mos, portanto, debitar-lhe inteiramente a solução desse problema, mesmo porque a cristianização da sociedade não depende de iniciativas dos poderes constituídos. Fraternidade, solidariedade, misericórdia, caridade, compaixão, não são passíveis de imposição por decretos.

Consideremos, ainda, que o Governo não é onis­ciente, onipresente, onipotente. Ele não sabe tudo, não vê tudo, não pode tudo. Mas a sociedade, como um to­do, formada pelos cidadãos que a compõem, pode exer­citar essas faculdades, na medida em que, diante das misé­rias humanas, sempre haverá alguém capaz de fazer algo, ao passo que a interferência de prepostos governamen­tais vai depender de os encontrarmos, de estarem dispos­tos a fazê-lo e desfrutarem de disponibilidades para tan­to.

No livro Atravessando a Rua, comentamos a expe­riência de um homem que encontrou um doente ao de­sabrigo, em noite muito fria, e suas tentativas para con­duzi-lo ao Albergue, a esbarrarem na falta de uma viatu­ra da própria instituição e de órgãos policiais e hospitala­res. Reclamando pela falta de colaboração, deu o assunto por encerrado. No dia seguinte, o doente foi encontrado sem vida. Morreu de frio.

De quem foi a culpa? Do Governo, sem dúvida. O albergue, o hospital, a polícia, que direta ou indiretamente o representam, fa­lharam na medida em que não se adequaram ao desem­penho de suas funções.

Mas há um cúmplice: o samaritano vacilante que, naquele exato mo­mento em que topou o doente, era o melhor represen­tante da sociedade para socorrê-lo. Bastava usar seu au­tomóvel ou providenciar um táxi, já que uma vida huma­na vale bem mais que embaraços ou despesas decorren­tes de semelhante iniciativa.

O recalcitrante socorrista, bem como dezenas de pessoas que passaram por ali, viram o problema e prefe­riram ignorá-lo, comportaram-se como membros de uma sociedade que se diz cristã, mas está longe de viver os ensinamentos do Cristo. Evidentemente não se improvisa o cristão. Ainda assim, não estamos impedidos de ensaiar fraternidade. Se ainda não conseguimos abrir a porta de nossa casa ao necessitado, abramos-lhe as portas da boa-vontade, dis­postos a fazer algo em seu benefício, sem debitar a inicia­tiva ao Governo, porquanto, diante dos infortúnios hu­manos, naquele exato momento em que os contempla­mos, somos os representantes melhor credenciados da sociedade para ajudar. Estamos ali.

Há outro aspecto importante: o Governo representa não apenas a sociedade, mas também suas tendências. Ele se vincula à história da nação, suas características, sua maneira de ser. A Alema­nha de Adolf Hitler foi a materialização da belicosidade e das pretensões de hegemonia racial de boa parte do povo alemão.

Seria, portanto, inocência, pretender que o indiví­duo alçado ao poder se transforme, por obra e graça do Espírito Santo, num campeão do Evangelho, apóstolo do Bem, empolgado pela promoção humana, trabalhan­do de sol a sol com disciplina, prudência, bom-senso, honestidade e, sobretudo, amor pelo semelhante.

Poderá surgir, de quando em vez, um sábio ou um santo na direção de um povo, mas ele próprio terá de lu­tar contra terríveis limitações e dificuldades, porquanto será um elemento estranho numa coletividade alheia aos seus ideais.

A sociedade legitimamente cristã deve ser construí­da de baixo para cima. Quando a maioria da população for cristianizada teremos governos capazes de vivenciar plenamente os ensinamentos de Jesus. Não há fórmulas mágicas para isso. É apenas uma questão de trabalho, muito trabalho no esforço do Bem.

Diz o Espírito Humberto de Campos, em psicogra­fia de Francisco Cândido Xavier: As missões legitimamente salvacionistas vêm à Terra vestidas de macacão.

O verdadeiro missionário é aquele que serve sem­pre, com inabalável disposição, empenhando a própria existência no esforço em favor do semelhante.

Isso explica porque o espírita consciente fatalmente se vincula a obras de assistência e promoção humanas - creches, berçários, escolas, abrigos, lares da infância e da velhice, hospitais - formando uma mentalidade de parti­cipação e de iniciativas em favor dos carentes de todos os matizes. Ele sabe que não há outro caminho.

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