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Artigo do Jornal: Jornal Outubro 2013
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Da novela à realidade

     Uma cena da novela da Rede Globo, Amor à Vida, que foi ao ar no dia 05/09/2013, foi motivo de muitos comentários. Ela mostrou a personagem Paloma, interpretada por Paolla Oliveira, internada em uma clínica psiquiátrica e submetida a um tratamento com eletrochoque, conhecido hoje, pelo termo eletroconvulsoterapia (ECT).

     No dia 06/09/2013, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) divulgou uma nota na qual esclareceu que "a condução do tratamento psiquiátrico dado à personagem não corresponde à realidade". Segundo ainda o parecer da entidade, o tratamento de eletrochoque "é um procedimento seguro, eficaz e indolor" e só tem indicação para pacientes que não tiveram resultados satisfatórios com a medicação.

     As ECTs, hoje em dia, são realizadas sob anestesia. O paciente não se debate, a convulsão é acompanhada unicamente no eletroencefalograma; é iniciada com o estímulo elétrico, que o paciente não sente porque está dormindo, e dura alguns segundos.

     As pesquisas sobre este assunto polêmico demonstram que, no início, este tipo de tratamento era feito sem relaxamento muscular e sem anestesia. Neste sentido, eram muito comuns fraturas de ossos, pois os pacientes se debatiam muito. Além disso, os equipamentos, muitas vezes, eram mal regulados, tendo como resultado choques excessivos ou ineficazes para o tratamento em questão.

     Foi neste cenário que um nome se destacou. Uma mulher decidiu tentar outro caminho. Seu nome: Nise da Silveira. Nascida em Maceió, no dia 15 de fevereiro de 1905, esta discípula do renomado Carl Gustav Jung iria manifestar-se contra todas as formas agressivas de tratamento de sua época.

     Nasce uma rebelde

     " Fui trabalhar numa enfermaria com um médico inteligente, mas que estava adaptado àquelas inovações. Então me disse: 'A senhora vai aprender as novas técnicas de tratamento. Vamos começar pelo eletrochoque.' Paramos diante da cama de um doente que estava ali para tomar eletrochoque. O psiquiatra apertou o botão e o homem entrou em convulsão”.

    

     A cena descrita, por si só, já é impactante. Imagine, então, presenciada por você ou vivida por alguém que você ama. Qual teria sido a sua reação?

     Certamente não ficaria indiferente. Nise da Silveira também não ficou, como ela mesma narrou:

    

     “Ele (o psiquiatra) mandou levar aquele paciente para a enfermeira e pediu que trouxessem outro. Quando o novo paciente ficou pronto para a aplicação do choque, o médico me disse: 'Aperte o botão.' E eu respondi: 'Não aperto.' Aí começou a rebelde."

    

     Era a década de 40, no Rio de Janeiro, quando Nise se negou a apertar aquele botão, que foi o símbolo da sua "rebeldia”. Como era de se esperar, "a rebelde" teve de pagar um preço: Nice foi encaminhada para outro setor do hospital, a ala de terapia ocupacional. Sem se deixar abater, foi neste novo desafio que ela deu início ao seu projeto.

     Aliás, Nise sabia que sempre enfrentaria desafios na profissão que escolheu desde que entrou para a Faculdade de Medicina da Bahia, em 1921, sendo a única mulher no meio de 157 homens da turma.

     No novo setor, Nice verificou o que era a “terapia ocupacional”: que "os doentes eram usados para varrer, limpar vasos sanitários, servir outros doentes". Mas para ela, o tratamento daquelas pessoas teria que ser feito através do carinho, pois ali se encontrava um ser humano que merecia ser tratado com respeito. E por acreditar no valor da terapia ocupacional, sabia que não podia ser entendida como mera ocupação. Começou a trabalhar com os pacientes através da arte.

     Aos seus olhos, cada manifestação artística, desenhos ou pinturas, eram expressões de sentimentos profundos que permitiam que ela penetrasse no universo interno daquelas pessoas.

     Seu trabalho pioneiro teve frutos: o Museu de Imagens do Inconsciente, criado em 1952. Este espaço foi criado a partir das obras produzidas pelos portadores de esquizofrenias que participavam da Seção de Terapêutica Ocupacional e a Casa das Palmeiras, local criado com o fim de oferecer um tratamento mais humano a pessoas com deficiência mental.

     *

     O apóstolo Paulo citou, na primeira Epístola aos Coríntios, no seu Capítulo 13: "Só o amor permanece para sempre".

     O recurso terapêutico do amor deve ser sempre o poderoso auxiliar nos processos que envolvem a saúde, pois segundo a benfeitora Joanna de Ângelis, "a causa atual dos distúrbios psicológicos sempre encontrará o amor-ausente como responsável".

     Nise da Silveira, quando optou por não apertar o botão, abriu uma nova possibilidade para os pacientes daquele hospital: o amor, porque sabia que o amor é a luz na escuridão dos sentimentos tumultuados.

     Bibliografia:

     - Nise da Silveira – uma psiquiatra rebelde. Ferreira Goullart

     - Amor Imbatível Amor – Joanna de Ângelis/Divaldo Franco

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