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Artigo do Jornal: Jornal Abril 2017

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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Toda manhã de sábado eu a vejo chegar cedo para as aulas de evangelização na Casa Espírita. Não fossem as duas criancinhas que traz pelas mãos, seria facilmente confundida com os adolescentes que ali se encontram, aguardando o início das atividades.

       Sei a sua história. Uma velha e batida história que não nos causa mais espanto.
Não conheceu o pai. A mãe, inexperiente, a trouxe ao mundo quando tinha apenas 16 anos. Cresceu ouvindo o quanto era culpada pelas limitações que a sua chegada havia imposto aos sonhos maternos. Sempre rejeitada, ansiava por ser amada e acolhida. Por isso, acreditou nas promessas do primeiro Romeu que a cortejou. A consequência não tardou a se manifestar: uma gravidez no início da adolescência. Ela, com 14 anos e seu parceiro, 17. Em um mísero barraco iniciaram a vida juntos. Pouco tempo depois foram surpreendidos com uma nova gravidez. Talvez por despreparo para um compromisso tão sério, o rapaz a abandonou antes mesmo do nascimento da criança. Foi no Centro Espírita que encontrou o apoio que procurava. Na creche mantida pela instituição, ela deixa os filhos enquanto cumpre sua jornada de trabalho de segunda a sábado.

Nessa casa, presto semanalmente minha contribuição como voluntária. Do local onde me encontro, eu a observo. Percebo em seu comportamento uma visível instabilidade emocional: ora brinca com os pequenos, entre doces sorrisos, ora se exalta e zanga, provocando-lhes o pranto. Nesses momentos, mostra-se bastante irritada. Grita. Faz ameaças. Põe de castigo. Quantas vezes, condoída, faço um agrado às crianças, colocando-as no colo, sabendo que, na verdade, é ela, a menina-mãe, quem mais precisa desse aconchego.

Triste realidade, tão recorrente no nosso Brasil. Pesquisas nacionais demonstram que adolescentes deram a luz à 431 mil bebês em 2016, o equivalente a 21% dos nascimentos no ano. O IBGE aponta a gravidez precoce como a maior causa de evasão escolar entre garotas de 10 a 17 anos. Vidas embaraçadas, sonhos cortados, futuros cinzentos...

Este é, sem dúvida, um grave problema a reclamar nossa atenção.

O medo de sermos tachados de retrógrados ou moralistas nos levam, muitas vezes, a silenciar ante esse quadro que se alastra como uma epidemia.

Esses novos tempos em que vivemos trazem as marcas das bandeiras desfraldadas a favor da liberdade total, traduzida na liberação dos costumes e na derrubada de barreiras. Tudo é permitido em nome do prazer. Tendo a vida sexual iniciada cedo, nossos adolescentes são, o tempo todo, estimulados pelos apelos que se encontram por toda parte, da programação televisiva aos conteúdos acessados na internet, nas campanhas publicitárias, nos outdoors. É cruel a constatação do quanto, no exterior, a imagem da mulher brasileira está associada ao sexo fácil, à permissividade. O sexo banalizado é vendido como produto de primeira necessidade. Nunca se consumiu tanta pornografia como agora.

Há décadas o Brasil vem enfrentando o problema da gravidez precoce sem atacar sua raiz do problema: a educação moral. Campanhas são feitas incentivando o uso de preservativos; escolas inserem conteúdos relacionados à sexualidade e reprodução em seus programas. Não é, portanto, a falta de conhecimento que leva à gravidez precoce.

Ao lado dos inúmeros fatores ligados à superexposição de temas da sexualidade, da permissividade vigente em todas as camadas sociais, há algo que raramente é apontado: a imaturidade neurológica do adolescente. Áreas do cérebro que respondem pelo controle da impulsividade e pelo estabelecimento de nexo entre ato e consequência só estão plenamente amadurecidos por volta dos 20 anos. Tal fato levanta a questão da responsabilidade dos pais perante seus filhos adolescentes.

Por mais que parecem independentes, que dominem os aparatos tecnológicos com maestria, que emitam opiniões acerca de tudo e se digam donos da sua vida, eles ainda estão, do ponto de vista biológico, imaturos. Carecem de orientação. Ocorre que, muitas vezes, aqueles que deveriam apontar o norte, estão ausentes ou se omitem, preocupados que estão com a própria vida.

Se aprendemos na Doutrina Espírita que os pais são responsáveis pelo progresso moral dos filhos, o quadro da gravidez precoce nos leva a perguntar: que contas darão a Deus os pais desses milhares de meninas que são mães quando mal saíram da infância? E mais: como imputar a essas adolescentes a responsabilidade de que nos falam os Benfeitores Espirituais?

Tema inesgotável, merece ser amplamente discutido nas Casas Espíritas, nos grupos de evangelizadores, de Juventude, Círculo de Pais, de Estudos, entre outros, haja vista a complexidade e gravidade da questão. Ainda que pequena, façamos a nossa parte.

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