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Artigo do Jornal: Jornal Dezembro 2016

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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Todos nós ansiamos, com maior ou menor intensidade, ser aceitos por aqueles que nos cercam, sejam familiares ou colegas. É na adolescência, em especial, que este sentimento ganha cores mais fortes, pois pertencer a um determinado grupo ajuda na definição da identidade. O jovem precisa construir uma personalidade que se encaixe confortavelmente em seus desejos, aspirações e valores. A partir daquilo que foi cultivado pela família, elaborado junto a seus pares e das suas próprias tendências e inclinações, ele vai delineando o seu perfil, definindo-se individual e socialmente.

Esse processo, marcado pela comunhão de valores e ideais, exigirá dele certas renúncias, pois aderir a um grupo implica, frequentemente, redução de liberdade e adesão a padrões de comportamento que nem sempre correspondem àquilo a que se está habituado, mas também poderá lhe oferecer ganhos significativos. Quem vivencia a grata sensação de ser aceito pelos demais, não tem que se explicar a toda hora e descobre que o confronto é desnecessário, na maioria das vezes.

A juventude presente na evangelização espírita está vivendo esse momento de construção de identidade.

Percebemos que há na Doutrina Espírita um grande potencial agregador e formador de identidades, podendo gerar grupos coesos e produtivos. A música, o teatro, a criação de material audiovisual, as campanhas, os eventos de confraternização etc., funcionam como fatores integradores, capazes de fortalecer os vínculos e os sentimentos de pertencimento aos que deles participam.

Em encontros como a COMEERJ (Confraternização das Mocidades Espíritas do Estado do Rio de Janeiro), jovens que, fora da evangelização, se percebem em minoria entre os seus pares não espíritas, ao constatarem que estão rodeados de um número elevado de outros jovens espíritas que comungam dos mesmos interesses e ideais, descobre que não está sozinho. Ver-se no outro abre as portas do sentimento de pertencimento e reforça a sua opção religiosa.

Apesar da existência desse potencial, notamos que há inúmeros jovens que ainda se sentem isolados e deslocados no Centro Espírita. Muitos se evadem, quando não se afastam de vez da Doutrina.

Por esse motivo, julgamos ser de suma importância chamar a atenção dos evangelizadores e mesmo das lideranças juvenis para a urgência de se oferecer a todos os jovens, indistintamente, oportunidades de identificação com algum projeto, alguma proposta coletiva, a fim de que desenvolvam o sentimento de pertencimento, levando-os à inclusão.

Uma juventude engajada e participativa é promessa de continuidade dos estudos e da prática doutrinária espírita. E, às vezes, basta muito pouco para que essa adesão ocorra.

Em pesquisa realizada por psicólogos da Universidade de Stanford1, publicada em 2012, ficou patente que, para os que estão entrando em um grupo, pequenas pistas, mesmo triviais, de que eles estão socialmente conectados aos companheiros, causa grande mudança na motivação para a atuação. Tais pistas são o suficiente para que eles se sintam parte do grupo e passem a colaborar ativamente com ele. Esse resultado ressalta a importância das relações sociais como uma fonte de interesses, de motivação e de formação de identidade  pessoal e grupal.

Outras pesquisas relacionadas às redes sociais têm demonstrado que pessoas com autoestima baixa, sem muitos amigos, estão mais sujeitas a se sentirem excluídas e rejeitadas quando utilizam esses recursos como forma de aproximação e estabelecimento de novas amizades.

Esses resultados só vêm confirmar a ideia de que, como educadores espíritas, precisamos encontrar meios para ajudar os jovens a fazer do acolhimento verdadeiro uma prática usual nos grupos de juventude. É necessário fazê-los entender que a prática da caridade também se expressa em trazer para perto aqueles que, por suas características pessoais, ficam à margem dos grupos constituídos.

Apesar de possíveis renúncias a que todos tenhamos que fazer quando assumimos uma identidade grupal, o que os une é muito mais forte: nossas crenças, valores, objetivos e ideais, que se expressam, exteriormente, como uma marca, um distintivo. O nosso é o desejo de seguirmos o Cristo e ajudarmos na implantação de um mundo melhor, onde reine a verdadeira fraternidade.

 


1 WALTON, Gregory M. et alii.  Mere belonging: The power of social connections. Journal of Personality and Social Psychology, vol. 102, n.3, p.513-532, mar.2012.

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