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Artigo do Jornal: Jornal Fevereiro 2016

Sobre o autor

Lúcia Moysés

Lúcia Moysés


"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel
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            Passei o Ano Novo com as unhas pintadas de azul. Não o da moda, escuro e brilhante, mas azul celeste e fosco. Obra da Inés, minha sobrinha-neta de oito anos. Assim que chegou à minha casa, apareceu com o vidro de esmalte na mão, se oferendo para pintar minhas unhas. Aceitei prontamente, mesmo sabendo que o resultado poderia deixar a desejar. Enquanto passava o pincel, me disse: “Sorte sua ter uma neta que sabe pintar unhas”.

            Sorte mesmo foi ter crianças à volta e poder desfrutar, por uns dias, das suas companhias, observando seus comportamentos e reações, como já havia acontecido no Natal.

            Na casa ampla, de jardins gramados e piscina, com a família reunida, tivemos momentos inesquecíveis, de pura alegria. As risadas ainda ecoam nos meus ouvidos, lembrando a partida de polo aquático que jogamos com Bruno, irmão da Inés, de onze anos. Ali estavam, ao meu lado, sua avó (minha irmã), meu irmão mais velho e sua esposa. Todos com mais de 70 anos, tendo como plateia outros membros da família, a torcer e a aplaudir nosso canhestro desempenho.

            À tarde, sentei-me ao lado do Dudu e seu primo Daniel para ouvi-los narrar casos engraçados, coisas de meninos de 10 anos. E à noite, depois da ceia natalina, ao som de música flamenca, a menina e sua mãe – ambas sevilhanas – bailaram para nós, enquanto batíamos palmas, marcando o ritmo da dança, embevecidos. E a animação continuou. Carol, que até então se isolara em seu quarto, vivendo e sofrendo a crise do início da adolescência, se juntou à tia, demonstrando domínio do samba no pé.

            Dias intensos, marcados por emoções e sentimentos positivos. Dias que nos fizeram pensar na importância da família e no quanto ganhamos quando nos dispomos a derrubar as barreiras geracionais, em uma convivência harmoniosa e pacífica.

             A criança que interage com o adulto de maneira prazerosa, que recebe a sua atenção e obtém o seu aplauso cresce em confiança e autoestima. Dedicar-lhe tempo, deixar-se levar por suas fantasias, entrando na brincadeira é uma forma de demonstrar-lhe que é amada.

            E é fundamental que possamos nos acercar da criança na hora certa, ganhando o seu amor e sua confiança, porque haverá um momento em que as portas da comunicação fácil irão se fechar, restando aos pais o enfrentamento e a contrariedade. É quando chega a adolescência.

            Naqueles dias em que passamos juntos, éramos duas gerações de adultos convivendo com as quatro crianças e aquela jovenzinha que acabara de completar 13 anos. Com exceção da noite de Natal, todo o resto do tempo ela passou isolada no seu quarto, diante do computador, online. Ela, que até um ano antes não perdia uma oportunidade de se divertir com as demais crianças, agora não via graça alguma no mundo offline. De repente, tudo ficou cinzento. As cores somente voltaram quando seu pai, jovem desportista, a levou para surfar, estreando uma prancha nova. Um momento de exclusividade e atenção.

            Cada fase do desenvolvimento infantil tem suas características próprias, como os exemplos aqui relatados bem o ilustram. As mudanças que começam a ocorrer no cérebro a partir do final da infância são responsáveis por grande parte dos problemas de relacionamento que ocorrem com os adolescentes. As risadas e brincadeiras das crianças menores atestam que ainda contam com uma grande quantidade de receptores de dopamina – o neurotransmissor do prazer – no cérebro. Mas, com a passagem do tempo, elas vão perdendo parte desses receptores. O comportamento muda, dando lugar ao tédio, ao desejo de isolamento e ao desânimo. Poucas são as fontes de prazer e manter-se online é uma delas, pois é sempre possível navegar em busca de novos interesses. E quando algo desagrada, basta um toque para deletar, bloquear pessoas e conversas. Não há exigências, podendo-se “surfar” à vontade, sem cobranças nem culpas.

            O mundo offline, ao contrário, é formado por pessoas com as quais se tem que ouvir, falar, responder. E o que é pior, obedecer. É o mundo das exigências, das responsabilidades.

            Seria interessante que os pais ajudassem os jovens a transitar, sem estresse, entre essas duas instâncias, tendo em mente que eles atribuem grande valor às mídias digitais, e que estão passando por intensas mudanças biopsíquicas. Assim, cônscios do seu papel, tais pais saberiam exigir dos filhos comportamentos adequados às necessidades do mundo real, da mesma forma que os deixariam sossegados na realidade virtual, sempre que possível.

            Essa é uma tarefa que se mostra mais fácil quando se plantou, na infância, as sementes do amor e da confiança.

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