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Sobre o autor

Dirceu Machado

Dirceu Machado

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Infância e juventude

Ernesto Bozzano nasceu em Gênova, a 9 de janeiro de 1862, quarto filho de um total de cinco irmãos. Pouco se sabe a respeito de sua infância e de seus primeiros estudos. A biografia mais completa, que relata esta época é devida a Gastone De Boni, que, em 1941, por ocasião do cinqüentenário da atividade científica de Ernesto Bozzano preparou, em sua homenagem, um relato dos mais completos.

Relata De Boni que, desde os primeiros anos, demonstrou um amor apaixonado pelo estudo, tanto que, aos quatro anos, importunava sua mãe para que lhe ensinasse a ler uma importante obra sobre a história genovesa. E, embora uma criança de quatro anos não estivesse à altura de compreender aquilo que tentava, todavia, lembrava-se ainda do amor com que sustentava nas mãos aquele grosso e misterioso volume.

Foi mandado para uma escola técnica, mas, embora fosse evidente sua vocação para aprender, seu pai impediu-o de estudar. Muitas foram suas lágrimas, mas a paixão de saber não se extinguiu, pelo contrário, aguçou-se ainda mais. O firme propósito de conseguir uma grande cultura e de tornar-se alguém na vida, fez-se uma lei para aquele rapaz.

Sua primeira vocação foi a literatura. Leu com bastante interesse os maiores clássicos  italianos. Para ler autores da língua inglesa teve que se tornar autodidata nessa língua; assim, conseguiu ler Milton, Shelley, Moore e Shakespeare. Deste último fez um estudo tão aprofundado que o pôs em condições de ler correntemente os dramas pujantes na língua fora de uso para ele.

Também se interessou pelas mais diferentes áreas do saber, pois já na idade de quinze anos, foi atraído pelo estudo da astronomia, a paleontologia, a psicologia e a filosofia científica.

Decênio filosófico

A seguir veio o que se pode chamar de o decênio filosófico e que vai de 1882 a 1892. Ao longo desse decênio, procurou penetrar no pensamento dos maiores filósofos, desde Platão a Hegel, de Descartes e Lotze a Rosmini e Gioberti; mas essas longas e laboriosas indagações no domínio da filosofia nada lhe trouxeram de concreto.

Volta-se, então, para a filosofia científica, em sucessão ininterrupta e com um ardor mais do que apaixonado leu e anotou o sistema de Herbert Spencer, o grande filósofo inglês.   Durante dois anos consecutivos, ele se dedicou apenas a estudar, anotar e classificar o conteúdo total do importante sistema filosófico spenceriano

Em sua autobiografia, Bozzano relata como o positivismo de Spencer exerceu tamanha influência em sua vida; e como, posteriormente, se converteu em um defensor das idéias espiritualistas. Diz ele: “No interesse de seus leitores, a International Psychic Gazette, de Londres, pediu-me um estudo autobiográfico, no qual, acima de tudo, relate as circunstâncias que me levaram a interessar-me pelas pesquisas psíquicas. Cedo de boa vontade ao pedido, reconhecendo que a história das conversões filosóficas contém sempre ensinos valiosos para os que a lêem.

Digo “conversões filosóficas” muito de intento, porque a minha o foi na mais ampla expressão do termo. Nasci em Gênova, Itália, em 1862 e a minha vida carece literalmente de episódios biográficos, pois tem sido a de um ermitão. Nunca fiz outra coisa senão estudar. Na mocidade, todos os ramos do conhecimento, atinentes às artes e ciências, exerceram igualmente irresistível fascinação sobre mim, tornando-me até difícil seguir um caminho na vida. Decidi-me, finalmente, pela Filosofia e Herbert Spencer foi o meu ídolo.

Tornei-me um positivista-materialista convicto a tal ponto que me parecia incrível existissem pessoas de cultura intelectual, dotadas normalmente de senso comum, que pudessem crer na existência ou na sobrevivência do espírito. Não somente pensava assim como até escrevia audaciosos artigos em apoio de minhas convicções. A lembrança de tal proceder me faz indulgente e tolerante para com uma classe particular de antagonistas que, de boa fé, sustentam ser capazes de refutar as rigorosas conclusões experimentais a que tem chegado o neo-espiritualismo, opondo-me às induções e deduções da Psicofisiologia, nas quais eu acreditava há 40 anos.

É preciso que se compreenda que, nos tempos a que me refiro, eu nada conhecia das investigações mediúnicas ou do Espiritismo, com exceção de breves artigos que eu lia nos jornais, sem lhes prestar maior atenção e nos quais se apontavam estratagemas de médiuns e se comentava piedosamente a credulidade dos espíritas.

Conversão ao espiritismo

Aconteceu, porém, que no ano de 1891 o professor Th. Ribot, diretor da Revue Philosophique, me escreveu comunicando a próxima publicação de uma nova revista sob o título de Annales des Sciences Psychiques, tendo como diretor o Dr. Darieux, antecessor do professor Charles Richet. Era uma revista que se propunha principalmente a colher e investigar certos casos curiosos de transmissão de pensamentos à distância, compreendidos sob a denominação de “fenômenos telepáticos”.

A misteriosa psicologia, oculta nesta frase, me atraiu a curiosidade, do mesmo modo que o nome do prof. Richet bastava para garantir a seriedade científica do empreendimento. Respondi ao prof. Ribot, agradecendo-lhe a atenção e incluindo-me entre os assinantes da revista. Devo sinceramente declarar que a leitura dos seus primeiros números produziu desastrosa impressão sobre o meu irreconciliável criterium positivista.

Parecia-me escandaloso que certos representantes da ciência oficial quisessem discutir seriamente a transmissão de pensamento de um continente a outro, as aparições de fantasmas telepáticos, como entidades reais, e casos atuais de assombração. O inibitivo poder das preconcepções tornara a minha faculdade de raciocinar inteiramente inacessível a tais idéias novas, ou, melhor, a tais fatos novos, pois realmente se tratava de fatos demonstrados cientificamente e rigorosamente documentados, embora eu não estivesse habilitado a assimilá-los.

Quando ainda era esse o meu estado mental, apareceu na Revue Philosophique um longo artigo do prof. Rosenbach, de São Petersburgo, Rússia, atacando com violência a “sacrílega intromissão deste novo misticismo” nos recintos da Psicologia oficial e explicando os novos casos pelas hipóteses da “alucinação”, das “coincidências fortuitas” e mais algumas de que não me lembro.
Tais refutações me pareceram tão deficientes e inábeis que produziram  efeito contrário ao que o autor pretendia e  me repugnava a mente. Convenci-me de que a questão era, realmente, de fatos.

Catalogava cada obra que lia, anotando os respectivos assuntos por ordem alfabética adequada, com a intenção de os utilizar para a classificação comparativa e a análise dos fatos e casos.

A excelência de semelhante método de investigação ficou de tal modo provada, que continuo a empregá-lo até à presente data. Guardo imorredoura lembrança desse período de fervorosas e perseverantes pesquisas, porque por meio delas me tornei capaz de assentar as minhas novas convicções espíritas sobre uma base cientificamente inabalável. Entre as obras que mais me influenciaram para a adoção de meu novo ponto de vista, mencionarei as seguintes:

Robert Dale Owen: - Footfalls on the Boundary of another World e The Debatable Land between this World and the Next;

Epes Sargent:  - Planchette, the Despair of Science;

Sra. de Morgan: - From Matter to Spirit;

Dr. N. B. Wolfe: - Startling Facts in Modern Spiritualism.

Do ponto de vista da fenomenologia mediúnica e de efeitos físicos, as atas, redigidas pela Sra. Speer, das sessões experimentais com William Stainton Moses foram as que produziram maior efeito persuasivo sobre as minhas convicções, em virtude da intervenção do espírito na fenomenologia, demonstradas nos comentários da revista Light de 1892 a 1893.
Fiquei, assim, apto a formar para mim mesmo um sólido conhecimento científico, tirado dos argumentos. Entendi, porém, que chegara o momento em que deveria confirmar os meus conhecimentos teóricos com investigações experimentais.”

Pesquisas efetuadas

Assim, começou Bozzano a participar das experiências sobre mediunidade e a escrever artigos sobre suas conclusões, a partir de 1900.

Ernesto Bozzano produziu mais de sessenta obras em toda a sua vida. Estas obras estão disponíveis em português, na chamada "Obras Completas de Bozzano". Suas monografias foram colecionadas no livro Seleções da mesma série, Ed. Livraria Allan Kardec Editora, 1949. Traduções de Francisco Klors Wernek.

Ele nunca negligenciou em suas pesquisas, tendo se tornado um dos mais produtivos cientistas dos fenômenos mediúnicos. Entre os seus trabalhos encontram-se relatos sobre  inúmeras sessões realizadas com Eusapia Palladino, uma das maiores médiuns de efeitos físicos que se tem notícias até os dias de hoje.

Ernesto Bozzano morreu em 24 de Junho de 1943, em Savona, Itália. Quando Bozzano morreu, Gastone de Boni, (1908 – 1986), a quem ele conheceu em 1920, herdou toda a sua biblioteca.  Gastone de Boni criou, então, uma sociedade chamada de Fondazione Biblioteca Bozzano-De Boni. Todo este material permitiu a Silvio Ravaldini, que se tornou presidente desta Fundação, elaborar uma extensa biografia de Ernesto Bozzano (Ernesto Bozzano e la Ricerca Psichica –Vita e opere di un pionere della parapsicologia, ed. Mediterranee, Roma, 1993).

Principais obras

(alguns dos títulos listados são publicações póstumas)

- Hipótese espírita e teoria científica, 1903;

- Dos casos de identificação espírita, 1909;

- Em defesa do Espiritismo, 1927;

- A Crise da Morte, 1930-52;

- Investigação sobre as manifestações supranormais, 1931-40;

- Xenoglossia, 1933;

- Dos fenômenos de bilocação, 1934;

- Dos fenômenos de possessão, 1936;

- Animismo ou espiritismo?, 1938;

- Povos primitivos e manifestações paranormais, 1941-46;

- Dos fenômenos de telestesia, 1942;

- Música transcendental, 1943;

- De mente a mente, 1946;

- Os mortos voltam, 1947;

- Literatura de além-túmulo, 1947;

- As visões dos moribundos, 1947;

- Luzes no futuro, 1947;

- Guerra e profecias, 1948;

- A psique domina a matéria, 1948;

- Os animais têm alma?, 1950;

- Pensamento e vontade, 1967;

- Os fenômenos de transfiguração, 1967.

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