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Artigo do Jornal: Jornal Novembro 2018

Sobre o autor

Iris Sinoti

Iris Sinoti

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Pela tradição bíblica, Lúcifer era um anjo muito belo, talvez um dos mais belos, e no sexto dia da criação, quando Deus pediu a Lúcifer que louvasse o homem, este se recusou a fazê-lo, pois considerava o homem inferior a ele. Convencendo um terço dos anjos a entrar na batalha pelo paraíso, o orgulhoso Lúcifer resolveu construir um trono acima do trono de Deus, transformando-se em dragão e se preparando para enfrentar o exército do bem, liderado pelo arcanjo Miguel. Uma vez derrotados, Lúcifer e seus companheiros foram mandados para o “inferno”, sendo que o líder, Lúcifer, se transformou no horrendo Satanás, prometendo se vingar de Deus pela destruição da Sua criação, o Homem.

Toda essa introdução é, na verdade, para entrarmos na analise simbólica dessa narrativa. Lúcifer pode ser comparado a uma parte da psique, que ganha primazia graças à condição moral do indivíduo, que mesmo podendo exercer todo seu potencial para o bem ainda não o faz, pelo contrário: rebela-se e aciona o que há de mais sombrio, atingindo a si mesmo e aos outros.

Onde esse mal se encontra? Será que o realizamos sempre de forma consciente? Por que isso acontece se as intenções são boas?

É importante compreender que todos os conteúdos psíquicos ao se manifestarem têm como parâmetro a moralidade do indivíduo. Mesmo a melhor das intenções pode ser ruim, quando a moral do individuo é dúbia, o que leva a concluir que o bem e o mal nada mais são do que aspectos morais residentes em nós. A vida psíquica, para a sua ampliação, necessita da autoconsciência para a sua iluminação. O ser, para realizar a plenitude que existe em latência, necessita do atrito desses polos contrários – sombra e luz / bem e mal - sem os quais não logrará seu pleno desenvolvimento.

De alguma forma sabemos tanto desse lado potencialmente mal que tememos, cada um conforme suas crenças, o “inferno” como castigo eterno. Isso nos leva imediatamente ao conflito vivido por Paulo 1 : “... Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço...”.

O que quero com toda essa reflexão é chegar ao ponto psicológico: muito do mal que cometemos e dos efeitos desse mal correspondem a uma profunda ignorância de quem realmente somos, e de uma imensa falta de senso de responsabilidade para consigo e para com o próximo. Assim, facilmente dizemos que praticamos o bem, sem nos darmos conta que também produzimos e provocamos o mal; queremos “salvar” o outro, mesmo assim o condenamos e julgamos. Tudo isso ocorre porque, enquanto o indivíduo não conhece o mal que reside em si mesmo, inevitavelmente o projetará em alguém ou em algum lugar, na forma de mecanismo de defesa que faz apontar e condenar no outro o que nele existe.

A residência do mal resulta da inconsciência de quem se é efetivamente, pois quando o ser se conscientiza da sua realidade, integrando os opostos que nele habitam, terá muito mais condições de efetuar escolhas felizes, para si e para o seu próximo. Por conta disso, não se pode alegar que todo o mal vem de fora, que o mundo é um lugar ruim e que por conta disso somos afetados pelo mal. Quando assim fazemos, esquecemos que o mal que habita o mundo em primeiro lugar reside nos seus próprios habitantes, e que cada um é responsável por transformar o próprio mal, senão seremos responsabilizados pelo mal gerado no mundo que vivemos, pois estaremos o deixando escapar de nós sem a devida transformação. É urgente a nossa renovação moral!

Para tal trabalho de renovação, precisamos de virtudes, dentre as quais três se destacam: humildade, coragem e perseverança. Humildade para reconhecer que não somos tão bons quanto nosso ego imagina ser, pois na condição humana, padecemos de limitações, “más inclinações” e de aspectos sombrios capazes das maiores crueldades. Reconhecer esse lado não é se identificar com ele, mas estar atento e vigilante o bastante para não deixar essa parte da personalidade assumir o controle da consciência.

Coragem para modificar nosso comportamento, para reconhecer os erros e transformar nossas atitudes, pautados na consciência. Coragem, em essência, não é aquela que leva a vencer o outro, mas aquela que conduz o indivíduo a vencer a si mesmo.

Perseverança, pois o trabalho com a sombra e o mal é trabalho para toda uma vida. Nenhum projeto a longo prazo pode ser concluído sem perseverança. Perseverar é ter sempre energia e disposição para o que é essencial. E não há nada mais essencial que nosso trabalho de transformação.

Não evoluiremos sem a tomada de consciência da “sombra”, ou seja, sem reconhecermos essa parte em nós capaz de se envolver e se comprometer com o mal. A nossa parte que não reconhece a criação divina nem em si mesmo nem no seu semelhante e que por esse motivo “vinga-se” do Criador nas suas criaturas. Se Lúcifer transformou-se em um símbolo do mal, não podemos esquecer que sua origem etimológica aponta para “o portador da luz”. Somos esses “portadores de luz”, que ainda se encontra “debaixo do alqueire”. Dia chegará a partir do nosso esforço próprio, que essa luz estará no alto, iluminando nosso caminho e levando luz aos que compartilham conosco dessa jornada chamada Vida.

1 Romanos 7:19

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