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Artigo do Jornal: Jornal Dezembro 2018
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“Não entregues tua alma à tristeza, não atormentes a ti mesmo em teus pensamentos” (Eclesiástico 30:22)

 

Muitas faculdades de medicina, em vários países, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, já têm a disciplina de Saúde e Espiritualidade aprovada, constando em seu curso. No Brasil, algumas escolas médicas já a introduziram em seu currículo de forma optativa. No Estado de São Paulo, pode-se citar a USP (Universidade de São Paulo), enquanto no Estado do Rio de Janeiro, são apontadas a UFF (Universidade Federal Fluminense) e a UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). No Ceará, alunos do curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) dispõem, desde 2004, da disciplina Espiritualidade e Saúde.

Em Minas Gerais, a cadeira de Saúde e Espiritualidade, da Faculdade de Medicina da UFMG, é a segunda criada no país. Na UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) existe o NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde), que faz parte do Programa de Pós-Graduação em Saúde da UFJF e desenvolve pesquisas interdisciplinares de excelência sobre as relações entre espiritualidade e saúde, sendo um centro de referência nacional e internacional. Em Viçosa, existe o NEME - Núcleo de Estudos de Medicina e Espiritualidade, vinculado ao Departamento de Medicina e Enfermagem da Universidade Federal de Viçosa, criado em 2015. Paulatinamente, o meio acadêmico verifica a importância da Espiritualidade na área da Saúde, ressaltando, com muita ênfase, a sua importância na formação do profissional e como eficaz coadjuvante no tratamento das doenças físicas e mentais. A disciplina aplicada a estudantes de medicina e enfermagem tem o escopo de enfatizar o reconhecimento da dimensão espiritual do paciente e, consequentemente, conduzir a um atendimento mais humanizado.

Na Cidade do Rio de Janeiro, no INCA (Instituto Nacional do Câncer) há um núcleo que promove assistência espiritual e inter-religiosa aos pacientes, acompanhantes, familiares e funcionários, acatando sua dignidade, individualidade e autonomia. É denominado de “Núcleo de Assistência Voluntária Espiritual” (Nave) e está localizado no Hospital do Câncer I (HC I), no prédio-sede do INCA (Praça Cruz Vermelha 23, 4º andar, Centro - Rio de Janeiro). Na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), alunos criaram a Liga Acadêmica de Medicina e Espiritualidade (Liame), em 2014, para dar espaço a pesquisas e debates sobre o tema.

Em Niterói, a disciplina Medicina e Espiritualidade, ministrada pela UFF (Universidade Federal Fluminense), além das salas de aulas, atende gratuitamente, através de professores e alunos das áreas de psicologia, medicina e arteterapia, pelo Núcleo de Estudos em Saúde, Medicina e Espiritualidade (Nesme). 

Na maior metrópole do País (São Paulo), precisamente no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, existe um programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade, denominado de “proSer”, o qual trabalha com a espiritualidade dos pacientes e prepara o agente de saúde para essa sublime tarefa profissional. Outra boa iniciativa é verificada no hospital Albert Einstein pelo funcionamento do Núcleo de Estudos sobre a Religiosidade-Espiritualidade em Saúde (NERES), integrado no Grupo de Dor e Cuidados Paliativos, onde se comprova os benefícios da fé, tanto nos pacientes como nos profissionais de saúde.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia mantém o Grupo de Estudos em Espiritualidade e Medicina Cardiovascular (Gemea), com centenas de médicos debatendo o assunto, sabendo que a pessoa que busca a espiritualidade e que pelo menos uma vez por semana participa de um culto religioso tem 34% a mais chance de proteção cardíaca, menor risco de desenvolver câncer e de suicidar.

 

Ciência atesta o Fator Espiritual no Conceito de Saúde

Alguns hospitais estão caminhando com passos largos no sentido de colocar a espiritualidade no cuidado à saúde, reconhecendo a relação entre elas como fator que contribui para o bem-estar do ser humano, em consonância com a Organização Mundial da Saúde, ressaltando que ostentar boa saúde não corresponde somente à ausência de doenças e enfermidades, mas a um estado de completo bem-estar físico, mental e social.

Engolfados em setores mais avançados de agenda da saúde, reforçados pelas considerações da resolução da 101a  Sessão da Assembleia Mundial de Saúde propondo uma modificação do conceito de saúde da OMS para um estado dinâmico de completo bem-estar físico, mental, espiritual e social, muitos especialistas demarcam, então, a saúde de forma mais abrangente como contentamento biopsicossocial-espiritual, ou seja: bem-estar físico, psicológico (mental e emocional), social (contexto ambiental) e espiritual (sentido para a vida).

A Ciência, paulatinamente, vai constatando, o que muitos setores espiritualistas vêm reafirmando há milênios, que a vida é regida em duas faixas vibratórias que se interpenetram, a espiritual e a física, sendo que a primeira, preexistindo ao corpo e sobrevivendo após seu falecimento, regida pela imortalidade, é a responsável pelas doenças que se instalam na organização somática. A medicina hodierna sabe de a necessidade do tratamento ocorrer de maneira integral, abrangendo igualmente os fatores sociais e psicológicos atuando sobre os processos orgânicos do corpo e sobre o bem-estar das pessoas. Felizmente, está havendo, na seara médica, uma mudança de paradigma, porquanto o profissional de saúde, assim como o paciente, vivencia emoções e sentimentos, rodeado de uma intensa e “fria” parafernália instrumental.

Importante ressaltar que a espiritualidade, intimamente ligada aos cuidados à saúde, agindo no paciente e até mesmo no profissional de saúde, não faz restrição a qualquer crença específica, respeitando a religião de cada ser. Em verdade, a espiritualidade versa sobre as relações do homem com o transcendente. Segundo Koenig, Mccullough e Larson, no livro “Handbook of Religion and Health”, espiritualidade “é uma busca pessoal para entender questões relacionadas ao fim da vida, ao seu sentido, sobre as relações com o sagrado ou o transcendente, que pode ou não levar ao desenvolvimento de práticas religiosas ou formações de comunidades religiosas”.

Nos últimos anos a valorização da dimensão 'não-material' ou espiritual nos domínios médicos tem crescido em importância, chamando a atenção de muitos pesquisadores. Centenas de estudos, relacionando espiritualidade e saúde, são unânimes na verificação de que as pessoas espiritualizadas são mais saudáveis, requerendo menos assistência de saúde e amalgamadas com estilos de vida que promovem a saúde. Geralmente são muito caseiras e totalmente refratárias às drogas. Em relação à depressão, são menos acometidas e as que padecem desse mal têm boa recuperação quando recebem intervenções que envolvam maior religiosidade. Importantíssimo para a manutenção da saúde a prática religiosa, ao lado das atividades físicas e da meditação.

A medicina de atuação completa ressalta a importância do cultivo dos bons sentimentos, acreditando que processos regidos pela culpa, mágoa, egoísmo, raiva, rancor e outros sentimentos doentios são causa ou agravamento de enfermidades. Como é importante para a saúde do indivíduo cultivar a fé, desde que muitos trabalhos científicos atestam que esse salutar sentimento influencia na saúde física e mental, diminuindo os riscos de diabetes, doenças cardiovasculares, respiratórias, infartos, insuficiência renal e acidente vascular cerebral, propiciando equilíbrio neurofisiológico e hormonal. Em 2004, o São Paulo Medical Journal, da Associação Paulista de Medicina, publicou uma pesquisa em cancerosos, enfatizando que o poder da prece é benéfico, agindo na recuperação desses pacientes.

 

A Importância do Evangelho no Entendimento de Espiritualidade e Saúde

Importante igualmente o cultivo do amor no coração, exercendo com fervor sua religião e praticar a caridade, que é o amor em ação, tanto para o próximo, quanto também para os animais e a flora. O Evangelho de Jesus, com suas lições eternas e belíssimas, pregando a prática da misericórdia em todos os momentos e circunstâncias, propicia ao homem a oportunidade gloriosa de galgarem um caminho, distanciado das plagas do egoísmo avassalador e dos pensamentos destrutivos, causas de todas as mazelas que assolam o ser humano.

O maior mestre que a humanidade tomou conhecimento, ao ser questionado a respeito da felicidade perene, que nunca cessará, revelou, carinhosamente, um roteiro sublime de iluminação, o qual consiste no amor a Deus e ao próximo como a si mesmo (Mateus 22:40). A afeição dispendida ao semelhante é a chave de libertação do indivíduo subjugado por pensamentos intrusos ou aprisionado pelo egoísmo que despreza as necessidades alheias. Essencial para a cura definitiva de um mal é afastar o orgulho e a presunção do interior de quem está em sofrimento e observar também as opiniões, interesses e imperativos de outrem. Quando a pessoa está se defrontando com batalhas em benefício do próximo, não tem mais tempo e disposição para ser subjugado pelos sofrimentos causados a si próprio. Ao mesmo tempo, constata que o transtorno do semelhante é deveras mais cruel do que ele próprio experimenta.

Exercendo a caridade, o indivíduo sente a sensação de dever cumprido e, ao mesmo tempo, vivencia intenso bem-estar, consequência da liberação de neurotransmissores, como a ocitocina e a endorfina, proporcionando paz e levando à melhora na imunidade, defendendo eficazmente o organismo dos agentes perniciosos. O contrário acontece quando o ser se defronta com emoções negativas. Portanto, a disciplina de Medicina e Espiritualidade atua no paciente para que se esforce para erradicar de si os maus sentimentos, as sensações negativas, como a culpa, o remorso, o rancor, a apatia, o apego e outras toxinas emocionais.

Em relação aos sentimentos negativos da mágoa, da raiva e do ódio, as pesquisas indicam para a importância de conscientizar as pessoas no sentido da prática do perdão, desde que o ressentimento, a mágoa guardada, atua por baixar a imunidade e estar associada também ao câncer. Já dizia um ilustre pensador (origem desconhecida): "Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra". O ser constantemente se agita interiormente, guardando uma sombria relíquia dentro de si, entulho constituído de lixo emocional. Há necessidade da sua limpeza urgente, o que acontece quando concretiza o ato de perdoar de verdade, de coração, nunca da boca para fora.  Concedendo o perdão, o sentimento ruminado desaparece e se vivencia a sensação benéfica de alívio, representado no organismo físico pela liberação dos neurotransmissores ocitocina e endorfina, com subsequente melhora na imunidade aliada ao bem-estar.

Na Bíblia, o significado do verbo perdoar na língua grega é, literalmente, “cancelar” ou “remir”, como também, “abrir mão” ou “deixar ir embora”. Jesus usou de imagem figurada, comparando a importância do perdão ao pagamento de uma dívida, na Parábola do Devedor Incompassivo (Mateus 18:23-35). O Mestre, em sua oração, clamou a Deus, dizendo: “E perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a qualquer que nos deve”... (Lucas 11:4). Em verdade, o Cristo, psicoterapeuta por excelência, exortou a humanidade à prática incomensurável do perdão, respondendo a Pedro que lhe perguntou: “Até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete? ” Jesus, porém, ensinou que o perdão deve ser sempre concedido, indefinidamente, respondendo: “Não até sete, mas até setenta vezes sete” (Mateus 18:21-22).

"A misericórdia é o complemento da brandura, porquanto aquele que não for misericordioso não poderá ser brando e pacifico. Ela consiste no esquecimento e no perdão das ofensas..."(O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. X - Item 4).

Essencial que a reconciliação se processe ainda na atual jornada reencarnatória, porquanto não sendo outorgado o perdão, o sofrimento continuará a ser vivenciado, após a morte, na dimensão da imortalidade, e permanecerá até chegar o momento da libertação final, a qual poderá ocorrer por meio do renascimento na carne dos inimigos espirituais em um mesmo lar.

É preciso mudar a forma como se veem os eventos ruins e a disciplina de Medicina e Espiritualidade surge para aparar todas as arestas, como a acalmia é esperada depois que passa a tempestade.

A vida congratula a todos os agentes de saúde que estão arrolados nesse magnânimo trabalho de amor ao próximo. 

 

 

Bibliografia

  1. Koenig H. G., King D. E., Carson V. B., “Handbook of Religion and Health”, 2nd Edition, New York, NY, Oxford University Press, 2012;
  2. Kardec, Allan, “O Evangelho Segundo O Espiritismo”, Cap. X - Item 4).
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