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Artigo do Jornal: Jornal Março 2018

Sobre o autor

Cláudio Conti

Cláudio Conti

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       Sexo e sexualidade ainda são temas carregados de certo tabu, talvez seja uma “herança” da ideia do pecado original. Com isso, surgem dificuldades de compreensão em decorrência de uma unilateralidade de visão. A consequência desta situação e a grande consternação gerada ao se expor a questão do sexo dos espíritos e possíveis práticas sexuais entre desencarnados, pois, há uma negação incisiva por parte da maioria sem, ao menos, considerar a possibilidade.

       É interessante observar que a postura de negação diante do tema em análise é manifestada lado a lado com o conceito de que a morte física, momento em que o espírito se liberta do corpo físico, não o torna nem melhor nem pior do que era enquanto na condição de encarnado, não “santifica” o espírito, que mantém seus interesses e, dentro das possibilidades, seus hábitos.

       Para a grande maioria dos espíritos ligados ao planeta Terra, não há grandes mudanças de comportamento e interesses antes e depois da desencarnação. Assim, da mesma forma que busca manter hábitos, sejam benéficos ou não, o interesse sexual e a conformação perispiritual se mantém.

       A providência não estipula mudanças drásticas, permitindo que o processo evolutivo seja gradual, possibilitando ao espírito a adaptação, também gradual, para as transformações e mudanças inerentes à aquisição de conhecimento e elevação moral.

       A prática sexual sadia entre seres que se amam faz parte da Providência, afinal, a espécie humana precisa sobreviver e, por isso, não deve ser vista como algo inadequado. Extrapolando este conceito, a relação sexual sadia não pode ser inadequada para qualquer condição de existência, seja encarnado ou desencarnado, por ser esta uma das formas de expressão do amor entre casais. Se o amor não termina quando um casal desencarna, será que haveria algum motivo pelo qual a forma de interação habitual não possa continuar, se não igual, ao menos semelhante?

       Independentemente de qualquer consternação ou debate que possa existir, a Codificação Kardequiana deve ser a referência para o estudo destacado de qualquer tipo de ideia preconcebida. Assim, analisando O Livro dos Espíritos, temos [1]:

       Têm sexos os Espíritos?

       “Não como o entendeis, pois que os sexos dependem da organização. Há entre eles amor e simpatia, mas baseados na concordância dos sentimentos”. 

       Esta colocação dos responsáveis pela Codificação é muito interessante e deve ser analisada com cuidado, pois, percebe-se que não se trata de uma afirmação categórica de que os espíritos não tenham sexo, apenas não como comumente é entendido.

       O sexo é comumente entendido como uma conformação orgânica que gerencia tendências e comportamentos. Todavia, não é bem assim que ocorre, haja vista a revolução, por assim dizer, nos dias atuais, sobre uma gama muito variada de orientações sexuais. O contato com tamanha diversidade gera um grande desconforto para aquele que mantém a mentalidade fixa de que o sexo vivenciado pelo espírito esteja relacionado unicamente com a estrutura orgânica e, com isso, as mais diversas teorias são elaboradas. O espírita consciente deve abordar este assunto com muita cautela para não atribuir interpretações pessoais à Doutrina. Devemos sempre lembrar que quanto melhor o entendimento de determinada questão, melhor será a orientação sob a visão espírita.

       Mesmo sob uma abordagem de constituição física, é preciso considerar que, ao desencarnar, o espírito mantém o seu perispírito, portanto, permanece com uma organização física na forma de homem ou de mulher, assim, também não podemos afirmar que, na condição de desencarnados, o espírito não mantenha sua conformação física relacionada com o sexo e, portanto, que não haveria atividade sexual.

       Além disso, devemos considerar que Deus cria alguma coisa [2], portanto, é preciso diferenciar entre o espírito propriamente, uma estrutura Criada por Deus e a forma como se expressa no mundo material [3].

       Entramos, desta forma, em uma questão delicada, pois, por um lado tem-se o espírito em si, cujo sexo não é como entendemos e, por outro lado, a forma como se expressa no mundo material, cujo sexo está relacionado com a constituição física. Percebe-se que não são conceitos muito bem definidos, talvez por que ainda não tenhamos meios de compreensão, contudo, não é um tema trivial ou “preto no branco”, mas toda uma escala de cinzas.

       Independentemente de qualquer coisa, seja com ou sem relações sexuais, o que deve unir os espíritos é o amor e a simpatia, baseados na concordância dos sentimentos. Quando chegarmos neste estágio, estaremos em condições de entender adequadamente a questão do sexo dos espíritos.

       Dois pontos, contudo, necessitam ser salientados. O primeiro é que todo tipo de excesso deve ser evitado, inclusive o sexual e, o segundo, é que este texto está relacionado com espíritos em nível evolutivo compatível com o planeta Terra, seja como encarnado ou não.


Notas bibliográficas:

1. Allan Kardec; O Livro dos Espíritos, questão 200.

2. Idem; questão 23a.

3. Claudio C. Conti; Espírito, Jornal Correio Espírita, Abril de 2014.

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