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Artigo do Jornal: Jornal Dezembro 2017
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A dupla vista é uma faculdade que abrange diversos fenômenos, mas tem como característica principal a ausência de um estado de transe, pelo menos visível ou identificável, pois ocorre durante a vigília. Muitos portadores não sabem que carregam em si essa capacidade extrassensorial, a acham muito natural e acreditam que todos a têm da mesma forma.

O possuidor da dupla vista pode descrever um lugar, acontecimento ou pessoa que se encontre fora do alcance da visão comum, mesmo sem nenhum conhecimento anterior a respeito. Pode ver, perceber ou sentir o passado (retrocognição) ou o futuro (precognição). Ou ainda, sua visão pode atravessar a matéria proporcionando a leitura do trecho de um livro fechado, por exemplo, enxergar através da parede, identificar algo trancado numa gaveta ou adivinhar cartas que se encontram com a face voltada para baixo. Todos esses fenômenos podem ser acompanhados ou não pela audição.

Há vários episódios narrados nos Evangelhos em que se destaca essa faculdade em Jesus:

E quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, no Monte das Oliveiras; então Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: Ide à aldeia, defronte de vós, e logo encontrareis uma jumenta amarrada e um filhote com ela. Após soltar, conduzi-os a mim. Indo os discípulos e fazendo o que Jesus lhes ordenara, conduziram a jumenta e o filhote, puseram sobre eles as vestes; e sentou-se em cima deles (Mt 21, 1-2, 6-7).

Este é apenas um exemplo, muitos outros podem ser encontrados como a presciência nos episódios do beijo de Judas e da pesca milagrosa. Allan Kardec narra, na Revista Espírita, um caso ocorrido com um armador, seu conhecido, que morava em Paris, conforme o mesmo lhe contou:

 

No último mês de abril, estando um pouco doente, fui passear em Tuileries com meu sócio. Fazia um tempo soberbo; o jardim estava cheio de gente. De repente, a multidão desapareceu aos meus olhos; não senti mais o meu corpo, fui como que transportado, e vi, distintamente, um navio entrando no porto de Havre. Eu o reconheci como sendo o Clémence, que esperávamos das Antilhas; eu o vi atracar no cais, distinguindo claramente os mastros, as velas, os marinheiros e todos os mais minuciosos detalhes, como se estivesse nesses lugares. Voltando para minha casa, me entregaram um telegrama. Antes de tomar conhecimento dele, disse: É o anúncio da chegada do Clémence, que entrou no Havre, às três horas. O telegrama confirmava, com efeito, essa entrada na hora em que eu a havia visto em Tuileries (KARDEC, Revista Espírita de 1858).

 

Para alguns, essa visão seria uma alucinação, e o fato da chegada do navio uma coincidência. Mas se podemos encontrar milhares de casos como esse, somos obrigados a procurar outra explicação. A faculdade é real, não há o que duvidar, sendo estudada pela Parapsicologia como fenômeno de cognição extrassensorial.

As experiências realizadas em laboratório por J. B. Rhine no século XX representaram um marco nas pesquisas desse fenômeno, como já citado no capítulo sobre telepatia. Milhares de testes foram realizados envolvendo a clarividência. Rhine e outros pesquisadores utilizavam cartas que deviam ser adivinhadas pelo sujet, dentro dos mais rigorosos critérios científicos. Nesses experimentos a clarividência era evidenciada quando as cartas eram descritas corretamente pelo sensitivo em quantidade estatisticamente acima da casualidade, ao tempo em que eram ignoradas pelo operador e por qualquer outra pessoa que só tomavam conhecimento das mesmas quando da verificação dos resultados. Desse modo, não tinha como o ledor acessar a informação em alguma mente. A leitura do símbolo contido na carta era feita diretamente dela. Apesar da capacidade de cognição sem o uso dos sentidos físicos ser de todos os tempos, através de tantos e tantos relatos, a sua confirmação científica se deu a partir das pesquisas de Rhine e seus sujets.

Na sua obra Novas Fronteiras da Mente, ele apresenta o que chamou de “uma das mais interessantes pesquisas concernentes aos fenômenos extrassensórios, levadas a efeito em laboratórios de fora”. O pesquisador era um psicólogo alemão chamado Hans Bender, que realizou as experiências com a estudante Fraulein D.

 

Em novas experiências com Fraulein D., Bender usou 27 cartões, nos quais foram desenhadas as 26 letras do alfabeto e um ponto. Os cartões eram colocados, separados, e em envelopes opacos, por um assistente, e embaralhados, de sorte que nem o próprio Bender sabia, quando escolheu um, qual a letra que continha. Bender entregou o envelope à paciente – que se achava reclinada num sofá – e ela o segurou sob um pesado pano escuro (RHINE, 1965, p. 95-96).

 

A possibilidade da jovem usar os sentidos físicos para saber em qual envelope se encontrava cada carta era absolutamente nula, dado o rigor do método empregado.

Os cartões encontravam-se envolvidos com papel celofane, o que eliminava qualquer possibilidade de sinais reconhecíveis pelo tato. Debaixo do pano, ela podia manuseá-los à vontade, e assim conseguiu os resultados mais promissores de todas as formas empregadas pelo Dr. Bender, bem acima do percentual atribuído ao acaso.

Uma quantidade gigante de testes foi realizada em várias partes do mundo buscando correlações entre a clarividência e a distância. Testes foram feitos com o sujet na sala ao lado, a algumas salas de distância, muitos metros ou mesmo muitas milhas separando-o do operador dos cartões a serem adivinhados. As provas abundaram da mesma forma confirmando que o espaço não é obstáculo para esse tipo de percepção. Em muitos casos, o resultado foi mais satisfatório à maior distância. Eis uma das experiências realizadas na Universidade de Duke na qual Pearce, o operador dos cartões, ficava na Biblioteca Geral da Universidade, enquanto Pratt, o indivíduo testado, permanecia a mais de 90 metros de distância, em sua sala de pesquisas no Edifício de Física. O início do teste era previamente marcado e o tempo cronometrado. Assim, a cada 1 minuto era tirada uma carta de cima do maço e mantida com a face para baixo até terminar as 25 cartas. Enquanto isso, o sujet tentava adivinhá-las a distância seguindo o padrão de tempo combinado.

 

Depois de deitar as cartas de dois maços, Pratt voltava-os e fazia o registro dos símbolos numa folha de papel. O registro era transportado num envelope fechado. Pearce trazia o seu nas mesmas condições. Não devia haver qualquer conversa entre os dois até que os envelopes me tivessem sido entregues, o que se fazia logo após a experiência (RHINE, 1965, p. 146).

 

Os casos ocorridos a cada dia, antigos ou recentes, atestam que a distância física não importa, nem os obstáculos materiais como paredes e outros, nem a posição do objeto, como comprovou a Parapsicologia através dos testes com cartas.

Para o Espiritismo a dupla vista ou segunda vista é a visão espiritual proporcionada por um estado de emancipação da alma que pressupõe uma certa condição de liberdade ou independência do Espírito com relação às condições sob que opera o nosso corpo. É uma função psíquica, um potencial intrínseco à alma que lhe permite captar aquilo que não está ao alcance dos cinco sentidos e que funciona a despeito das leis físicas conhecidas.

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