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Artigo do Jornal: Jornal Setembro 2017

Sobre o autor

Iris Sinoti

Iris Sinoti

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“Não é na maneira como uma alma se aproxima da outra, mas na maneira como se afasta, que reconheço seu parentesco e afinidade com a outra”. F. Nietzsche

 

Quando o casal toma a decisão de se separar mobiliza muitas dores, mesmo tendo sido muito pensada, e por isso nem sempre se tem a sensação de alívio. E por que isso acontece?

Um ponto que não podemos esquecer é que a separação marca o fim de um vínculo profundo, e principalmente de laços emocionais e afetivos que muitas vezes não são só formados pelo amor, mas também pelos traumas e carências de ambos. Quanto mais tempo essa decisão foi adiada, mais desoladora será a separação, podendo no final gerar muito sofrimento, incompreensões e ofensas.

É sempre importante lembrar que o casamento não significa uma amarra que ambos os cônjuges devem manter-se atados, como nos lembra, Joanna de Ângelis2: “É claro que o casamento não impõe um compromisso irreversível, o que seria terrivelmente perturbador e imoral, em razão de todos os desafios que apresenta, os quais deixam muitas sequelas, quando não necessariamente diluídos pela compreensão e pela afetividade”. O vínculo firmado pelo casamento é, depois do parental, o mais profundo na vida da pessoa, e quando rompido exige um grande trabalho interior para recuperar o equilíbrio emotivo; quando não se tem sucesso, transfere-se para o antigo cônjuge todo um arsenal de questões não resolvidas, tornando esse momento ainda mais difícil.

Muitas vezes se perde um longo tempo de refazimento tentando encontrar o culpado pelo ocorrido. Mas, como pode existir apenas um culpado quando estamos falando da relação de dois? É muito importante lembrar que tudo o que ocorreu no casamento teve um autor e um cúmplice, o que imediatamente nos leva a uma conclusão óbvia: ambos se encontravam juntos no momento do sim e também no momento do não.

Talvez, a culpa que mais tortura as pessoas seja aquela voltada para si mesmo, aquela que aparece justamente quando uma das partes percebe que deixou que muitas situações passassem do tempo de serem resolvidas, que muitas palavras que deveriam ser faladas fossem engolidas, e que muitos “nãos” que deveriam ser ditos fossem esquecidos. Para a maioria das pessoas esse momento traz uma insuportável sensação de ter desperdiçado tempo de ter deixado passar a própria vida.

Quando não se encontra maduro o suficiente para lidar com tamanha frustração, assim como reconhecer a própria responsabilidade na relação, é possível que um dos ex-cônjuges se deixe levar pelo rancor, considerando o outro como responsável por tudo o que deixou de realizar na vida.

Será que falamos pouco sobre esse assunto porque guardamos no nosso íntimo a crença de que o fracasso do casamento significa o fracasso de uma vida inteira? O término de uma relação é o término de uma relação. E por mais doloroso esse término, ele e a própria relação não definem as partes envolvidas. E se as vidas despedaçaram-se junto com a relação, algo estava realmente muito errado e precisava de medidas urgentes.

Esse é o momento no qual a relação consigo mesmo deve prevalecer, aproveitando para buscar em si mesmo e na própria história as respostas que desesperadamente se espera encontrar fora. É importante reconhecer o quanto foram projetadas no cônjuge toda uma sobrecarga de carências, temores e exigências infantis, provavelmente há muito negligenciadas. Isso não só liberta do passado como também ajuda a ressignificar o motivo do casamento, abrindo novas perspectivas para ambos. 

Que não esqueçamos que o casamento que tanto buscamos precisa acontecer primeiro dentro de cada um de nós. Ter uma relação plena, profunda e madura com outra pessoa exige que se tenha a mesma relação consigo mesmo, afinal, “O desafio do relacionamento é um gigantesco convite ao amor, a fim de alcançar a plenitude existencial3.”

Que não percamos a esperança de que se é possível viver uma relação plena, saudável, madura e amorosa, mas que também saibamos que, caso a separação seja necessária, esse pode ser o encerramento de um capítulo para a possibilidade de se escrever uma nova história.

 


1 Continuação de tema abordado em edição anterior: “E viveram felizes para sempre?!”

2 Amor, imbatível amor, cap. 1.

3 Joanna de Ângelis. O Despertar do Espírito, cap. 7.

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