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Artigo do Jornal: Jornal Abril 2017

Sobre o autor

Cláudio Conti

Cláudio Conti

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O conceito de vida eterna e de eternidade ainda é um tanto quanto complexo para o entendimento em decorrência do fato de que nossa interpretação das coisas, sejam elas quais forem, é sempre baseada numa visão temporal e espacial. Todavia, a eternidade em si se perde no tempo, portanto, é necessário uma avaliação atemporal. Similarmente, o conceito de infinito se perde no próprio espaço, a tal ponto de se considerar que duas retas paralelas se encontram no infinito.

       Tempo e espaço ainda se tornam mais complexos, ou mais simples, dependendo do ponto de vista, quando analisado pela Teoria da Relatividade. Tempo e espaço passaram a ser considerados de forma completamente diferente do que se costumava pensar; não são entidades fixas e constantes, mas dependem daquilo que é denominado de “observador”, isto é, depende da forma como as medições são realizadas, do que é tido como o referencial.

       Quando passamos a considerar o tempo como dependente do referencial, o conceito de eternidade como "todo o sempre", também precisa ser revisto.

       Considerando a conceituação espírita sobre o encarnado ser uma combinação de espírito e corpo material, uma aparente dualidade, na análise da questão do tempo, será necessário sempre definir, primeiramente, o referencial espírito ou corpo.

       O espírito, enquanto corpo, está sujeito à ação do tempo da forma como é comumente conhecido. Tendo em vista a ocorrência da morte como ausência total de atividade consciente no corpo, não se pode falar em eternidade quando se usa como base o tempo de vida médio do ser humano. O termo “atividade consciente” foi aqui utilizado para distinguir da decomposição natural do corpo após a morte, pois esta não deixa de ser um tipo de atividade.

       Contudo, quando se considera o espírito enquanto ser inteligente, Criação de Deus, o referencial sofre uma alteração profunda, sem paralelo com a Ciência Acadêmica e, portanto, uma análise temporal deixa de ser válida.

       Neste mesmo contexto, outra dúvida surge naturalmente quando se analisa a existência eterna. Se não existe a morte para o espírito, também não pode existir a vida, pois vida é o oposto de morte, sem um, não há o outro. Em outras palavras, para aquele que não conhece a morte, o estado em que se encontra é único o de existência.

       A terminologia muito utilizada do espírito ser imortal causa, também, certa dificuldade de entendimento, independente da ilusão de esclarecer, pois algo somente pode ser considerado imortal quando em oposição com o mortal. Assim, como não existe espírito mortal, também não poderá existir espírito imortal. Estas colocações são subterfúgios para tentar explicar a existência do espírito sob uma ótica temporal. Sempre se incorrerá em erros quando se tenta explicar algo utilizando as características de outra coisa.

       Em suma, costuma-se tentar encontrar explicações e entendimentos relacionados com o espírito enquanto ser inteligente, Criação de Deus, utilizando os parâmetros do espírito enquanto corpo. Este procedimento dificulta que o indivíduo se reconheça como um ser que não vive, mas que existe. Esta abordagem tende a conduzir o entendimento da própria essência espiritual, que é a da própria existência e com a qual não há comparação possível.

       As questões 153 e 153a de O Livro dos Espíritos1 demonstram a dificuldade de se explicar algo sem a conceituação de base disponível, pois, vale lembrar que a Teoria da Relatividade somente surgiu no século XX.

       Na Questão 153 temos:

153. Em que sentido se deve entender a vida eterna?

“A vida do espírito é que é eterna; a do corpo é transitória e passageira. Quando o corpo morre, a alma retoma a vida eterna”.

       Esta resposta, quando analisada detalhadamente, demonstra, na primeira parte, a distinção entre os estados em que o espírito pode se encontrar, desencarnado e encarnado, apresentando duas condições de vida. A segunda parte, por sua vez, conduz à ideia de que, ao encarnar, o espírito sai, por assim dizer, da condição de vida eterna para adentrar na condição de vida transitória, seriam, portanto, duas “formas” de vida. A vida eterna, neste prisma, pode ser interpretada como tendo a ideia de recorrência e não de continuidade infinita.

       Kardec, diante desta resposta, procura estabelecer a “vida eterna” com o viés de continuidade, e não de recorrência. Neste intento, Kardec pergunta se a vida eterna não seria a dos espíritos puros, isto é, daqueles que não mais sairiam desta condição. Quando os espíritos esclarecem que isto seria, antes, a felicidade eterna, como pode ser verificado na questão transcrita a seguir:

 

a) Não seria mais exato chamar vida eterna à dos Espíritos puros, dos que, tendo atingido a perfeição, não estão sujeitos a sofrer mais prova alguma?

“Essa é antes a felicidade eterna. Mas isto constitui uma questão de palavras. Chamai as coisas como quiserdes, contanto que vos entendais”.

       Fica, então, patente que os espíritos responsáveis pela Codificação se referem a duas formas de vida, a eterna e a do corpo, se referindo à mudança de estado do espírito, desencarnado ou encarnado. O espírito, portanto, existe independentemente do estado em que se encontra.

       Assim, diante de conceito complexo como este, muitas vezes as palavras são insuficientes para transmitir aquilo que se deseja, cabendo àquele que recebe a informação o exercício mental para a sua compreensão. O importante, contudo, não são as denominações, mas o entendimento correto do conceito.

 

Notas bibliográficas:

1. Allan Kardec; O Livro dos Espíritos; questões 153 e 153a.

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