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Artigo do Jornal: Jornal Janeiro 2017

Sobre o autor

Djalma Santos

Djalma Santos

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Era uma vez um Rei muito bondoso e sincero para com os seus súditos. Ele vivia numa época muito recuada da nossa história universal; tão recuada que nem mesmo o dinheiro existia, e a movimentação de mercadorias se fazia através de trocas, ou seja, quem havia colhido arroz em excesso trocava pelo feijão; quem não plantava, mas era carpinteiro, trocava seus serviços por gêneros de primeira necessidade e assim por diante. O caridoso monarca administrava as trocas entre seus vassalos com muita transparência, e retirava também uma pequena parte para o sustento de sua família e o sustento dos membros do palácio.

       O povo vivia uma felicidade relativa, e o tempo corria de uma forma monótona, sem que nada acontecesse de anormal que pudesse quebrar a atmosfera calma e tranquila que reinava nas almas simples daquele povo. Até que um dia o Rei adoeceu gravemente de uma enfermidade desconhecida, sem que nenhum médico daquela época conseguisse diagnosticar. Foram chamados curandeiros e magnetizadores, magos, bruxas e feiticeiros do reino, sem nenhum sucesso, deixando as pessoas ligadas diretamente ao monarca preocupadas, pois o monarca piorava a cada dia, e tudo indicava que ele morreria dentro de pouco tempo.

       O Rei definhava lentamente, não se alimentava, e a cada dia se tornava mais triste e acabrunhado, demonstrando ter perdido a vontade de viver, passando a ficar isolado em um dos muitos quartos do palácio real onde não recebia ninguém, nem os membros de sua família, que desesperada empenhava todos os esforços para salvar o infeliz monarca. Decorridos dois anos da enfermidade do Rei, ninguém mais acreditava em sua cura, e esperava para qualquer momento a sua morte. Foi quando apareceu em frente ao palácio real uma velhinha aparentando uns noventas anos, mendiga e maltrapilha, pedindo um prato de comida. O guarda de plantão mandou que alguém fosse até a cozinha e trouxesse o alimento, e, enquanto isso ela perguntou ao guarda o porquê de o povo estar tão triste, já que em outra oportunidade estivera ali no palácio, e o povo se mostrara alegre e feliz, no que o soldado respondeu: O nosso monarca está com uma enfermidade incurável, e o sofrimento do Rei passou para povo, que aguarda pacientemente a sua morte.

A mendiga disse ao militar que gostaria de ver o Rei, pois poderia curá-lo, por meios de sortilégios e fórmulas mágicas, recebendo do soldado a informação de que iria consultar os seus superiores. A proposta da velhinha correu de boca em boca até chegar aos ouvidos do primeiro ministro encarregado dos negócios da corte, que depois de consultar seus pares resolveu deixar que aquela velha senhora entrasse nos aposentos do Rei, pois afinal de contas diziam: Ele vai morrer mesmo, e qual a importância de deixar essa senhora tentar curá-lo? A mendiga penetrou nos aposentos do monarca enfermo e, depois de examiná-lo minuciosamente, voltou-se para os ministros que a rodeavam e disse o seguinte: - O Rei não tem absolutamente nada, só está muito infeliz! Afirmou, diante de uma plateia estarrecida . Claro que ele está infeliz! Disse um dos ministros quem não estaria se estivesse no lugar dele? Mas o que queremos da senhora é o remédio, o antídoto ou qualquer fórmula mágica para curar o Rei.

A velhinha então chamou o primeiro ministro e lhe falou baixinho: O Rei precisa vestir a camisa de um homem feliz para que possa sorrir e continuar vivendo! O ministro perguntou como funcionava a terapia e ela respondeu: - Vocês precisam encontrar um homem que não tenha nenhum desejo, nenhuma ambição pessoal, que esteja satisfeito com tudo, que não reclame de nada, que demonstre alegria real em estar vivendo e que não aceite qualquer tipo de suborno para modificar sua situação atual para melhor! Encontrado esse homem disse a velinha ele deverá vender, emprestar ou doar sua camisa para que o monarca a vista e possa ficar curado! O ministro levou a mensagem aos seus companheiros de trabalho, que disseram ser fácil encontrar esse homem, até mesmo dentro do próprio palácio.

Foi formada uma comissão para encontrar o homem feliz, e o primeiro a ser interrogado foi o capitão da guarda real, que informou estar bem, mas gostaria de ser promovido a major. O soldado disse que queria ser cabo, e o cabo gostaria de ser sargento ou dar baixa e ser civil. O mesmo acontecendo com o cozinheiro, que queria trabalhar na copa, e o copeiro que queria ir para o campo. Quem tinha o cabelo enrolado queria espichá-lo e quem o tinha liso gostaria de fazer permanente; quem vivia na cidade queria ir para o campo, e as pessoas do campo gostariam de morar na cidade. Nos locais onde havia chovido recentemente, as pessoas pediam o sol. Ninguém estava satisfeito com nada e a comissão resolveu ir para o campo, onde as pessoas são mais humildes, e talvez ali encontrassem o homem feliz.

Na zona rural a situação não era diferente, pois quem havia plantado arroz estava insatisfeito e queria criar bois; quem tinha lavoura de café queria plantar cana, e maioria dos ruralistas queria morar na cidade. Os ministros resolveram então voltar ao palácio, onde certamente o Rei já teria morrido, porque já tinham decorridos dois anos que partiram, sem que tivessem notícias da enfermidade do Rei. Caminhavam em direção ao palácio real, numa pequena colina de onde se avistava a cidade, e fazia uma chuva fina e fria, com todos bem agasalhados, quando depararam com um pastor de ovelhas que apascentava tranquilamente os seus animais, embrulhado em uma capa de pele, e parecia estar feliz, pois assoviava enquanto movimentava uma varinha para advertir os animais. O pastor foi abordado e prometeu responder todas as perguntas da comissão de ministros. O dia está péssimo, disse um dos ministros para o pastor, que respondeu: - Não, o dia está ótimo, e a chuva cai maravilhosamente, sem ela nada cresce, não prospera; chuva é vida disse o matuto. Mas o senhor não gostaria de morar na cidade, onde tudo é mais fácil, e o Rei poderia lhe dar uma casa e um salário? Disse o primeiro ministro . Não respondeu ele , eu não saberia viver na cidade, nasci e me criei na roça e é aqui que vou morrer. E se déssemos uma grande quantia em dinheiro para o senhor, perguntaram a ele. Eu não saberia o que fazer com o dinheiro, sempre vivi do que planto e colho, e do leite, peles e lã dos meus animais; o dinheiro só atrapalharia.

Diante de tantas respostas positivas, sem demonstrar nenhum desejo de obter coisas ou ambição pessoal, os ministros resolveram que ele era o homem que estavam procurando, e de imediato propuseram comprar-lhe a camisa, no que respondeu que nunca tinha vendido nada. Perguntaram se poderia doar sua camisa ou até mesmo emprestá-la, e a resposta foi negativa, irritando os ministros, que resolveram tomar a força a camisa do homem feliz. Eram muitos, e o pastor não pôde fazer nada, sendo agarrado e retirada a capa que ele vestia, surgindo então a grande surpresa: o homem feliz estava sem camisa!

O homem feliz estava sem camisa, porque a camisa do homem feliz é interna e não externa, como milhares de pessoas pensam, e Jesus, no seu Evangelho de amor diz isso de uma maneira cabal, completa, quando afirma categoricamente: “Se disserem que meu reino está ali ou acolá não acredite! O reino de Deus está dentro de vocês”. E nos provérbios do Rei Salomão ele diz, textualmente: “Feliz é o homem cujos atos sua consciência não o acusa! Em suma, a felicidade está no dever cumprido, na convivência pacífica com os nossos irmãos de luta.

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