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Artigo do Jornal: Jornal Setembro 2017
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Conversávamos à saída de um Centro Espírita, em São Paulo, por volta de dezesseis horas, depois de concorrida reunião de estudos. Em dado momento, um motociclista parou ao nosso lado.

Percebi que os companheiros se assustaram. Suspiraram aliviados quando ele simplesmente pediu uma informação e partiu. Fiquei sabendo, então, que o pessoal da pesada costuma assaltar de motoca, versão moderna dos filmes de bang-bang, em que pistoleiros montavam resfolegantes corcéis.

       A conversa voltou-se para a neurose que há nas cidades grandes. Tornou-se lugar comum dizer que os bandidos estão soltos, enquanto a população vive trancada em fortalezas domésticas, repletas de grades e dispositivos de segurança.

       Geralmente associamos o problema à miséria, considerando que populações marginalizadas e esquecidas apelam para a violência como opção de sobrevivência. Esse é um dos aspectos do problema, porquanto a violência é um fenômeno universal, presente mesmo em países como os Estados Unidos, onde a população carente é reduzida e bem amparada.

       A maioria dos moradores de favelas passa por privações amargas e nem por isso resvala para uma vida de crimes. É gente humilde que enfrenta com dignidade, disposição e fortaleza de ânimo as agruras da pobreza.                          

       O evidente, nestes tempos de transição, em que a população mundial ultrapassou os sete bilhões de habitantes, é que estamos sofrendo, à semelhança do que ocorreu no passado com o Império Romano, uma invasão de bárbaros. A diferença é que no pretérito estas hordas tinham uma conformação étnica, situando-se por hunos, visigodos, vândalos...

Os bárbaros de hoje surgem das entranhas de nossa própria sociedade, a partir do processo reencarnatório. Aguardam apenas o tempo certo, a idade adequada, a partir da adolescência, para iniciarem suas estripulias.

       Por que foram abertas as porteiras do Umbral, despejando sobre o plano físico multidões desvairadas, cuja característica principal é a agressividade e o desrespeito pela vida humana?

       Estamos diante de uma contingência evolutiva. O crescimento da população oferece a inteligências primitivas a oportunidade de um contato com as agruras da vida física, qual lixa grossa a desbastar suas imperfeições mais grosseiras, ao mesmo tempo em que sua presença perturbadora impõe às coletividades terrestres uma reavaliação de suas motivações existenciais.

       O leitor, por certo, estará imaginando o que temos a ver com os marginais que transitam entre nós. Consideremos, em princípio, o comportamento do homem comum. Calcula-se que nas férias escolares, perto de quinze milhões de brasileiros buscam descanso nas praias.

Os fins de semana são marcados por multidões que procuram "sombra e água fresca" para cultivar a felicidade de não fazer absolutamente nada, dando tratos à fantasia, sob o embalo da indiferença que sempre sugere perigosas incursões no vício e na imprudência.

       Não há porque censurar o descanso, o lazer, a viagem, a rede… O problema é que isso tudo que deveria ser parte da vida, costuma tornar-se a finalidade dela, sob inspiração do velho egoísmo humano. Resultado: prevalece a ideia de que todos os problemas que envolvem o País e a comunidade devem ser resolvidos pelo governo, ao qual compete educar o ignorante, conter o agressivo, castigar o criminoso, sustentar o desempregado, promover o progresso, realizar nossos sonhos de prosperidade!

       Não nos demos conta de algo elementar: o governo é apenas uma representação da sociedade! Pouco poderá fazer se a população não se engajar decididamente nas iniciativas que visam o bem-estar social.

       A decantada civilização cristianizada do Terceiro Milênio não será implantada por decreto celeste. Inútil esperar por ela, enquanto as coletividades terrestres não operarem fundamental mudança de comportamento, partindo do egoísmo para o altruísmo, dos interesses pessoais para as necessidades coletivas, das realizações efêmeras do individualismo exacerbado para as gloriosas construções do amor fraterno.

       Imaginemos uma mobilização de toda a população produtiva de uma comunidade, envolvendo a classe média e abastada, a oferecer de seus recursos, de seu tempo, de seu trabalho…

  Não haveria problemas insolúveis. A própria subnutrição que aflige milhões de brasileiros não é simples fruto de uma má distribuição dos bens da produção, de leis injustas criadas por minorias ambiciosas, como pretendem os socialistas de plantão.

       Ela é sustentada muito mais pela omissão de considerável parcela da população que poderia algo fazer, mas simplesmente prefere fechar os olhos, transitando sem traumas e sem constrangimentos entre necessitados e sofredores de todos os matizes, em absoluta indiferença.

Ingenuidade falar-se em justiça social ao peso de mudanças estruturais, leis ou regimes, num mundo orientado pelo supremo gerador de injustiças que é o egoísmo, a tendência de cada um por si e o resto que se dane!

       Quando Allan Kardec desfraldou a bandeira da Caridade, proclamando que sem ela não há salvação, não enunciou nenhum princípio escatológico relacionado com suposto julgamento divino.

       Simplesmente demonstrava que sem a ação em favor do semelhante, em todos os setores da atividade humana, no lar, na sociedade, na profissão, no círculo religioso, jamais nos livraremos dos males que afligem a Humanidade.

– Acaso serei tutor de meu irmão? – pergunta Caim ao Senhor, no texto bíblico, pretendendo furtar-se à responsabilidade pelo assassinato de Abel. Implicitamente essa afirmação negativa está presente em nosso comportamento quando, com nossa omissão, aniquilamos esperanças, sedimentamos o desespero e favorecemos a agressividade em multidões que ainda não despertaram para as responsabilidades da Vida, nem conhecem os princípios de Justiça e Amor que regem o Universo.

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