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Artigo do Jornal: Jornal Dezembro 2016
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Enquanto dirigia no centro do Rio de Janeiro, retornando do trabalho, vi em um muro a seguinte inscrição: “Se a carne é fraca, por que perdemos sempre para ela?”. A reflexão sobre essa pérola estampada na paisagem urbana me fez recordar, divagando na direção, de como essa expressão, “a carne é fraca”, serve para nos justificarmos, perante nós e perante os outros, por deslizes, erros e vacilos. Uma muleta diante do arrependimento e da derrota.

Invocamos a carne é fraca como indicação de que a intenção de acertar é boa, mas as forças atávicas, a animalidade oriunda da carne nos suplanta, nos conduzindo a conduta reprovável, de forma irresistível. Uma visão de culpabilidade, de castigo, justificativas e até de um certo puritanismo, que ignora a nossa condição humana, frente aos desafios e que as lutas são diárias, para todos. Errar e cair faz parte do nosso processo de evolução. 

Kardec não desconsiderou essa discussão. Pelo contrário, trata dela de forma bem interessante no livro O céu e o Inferno, e nesse sentido, destaco o seguinte trecho: “Pode-se, portanto, admitir que o temperamento é, pelo menos em parte, determinado pela natureza do espírito, que é causa e não efeito. (...) justificar seus erros pela fraqueza da carne é apenas um subterfúgio para escapar à responsabilidade. A carne só é fraca porque o espírito é fraco, o que reverte a questão, e deixa ao espírito a responsabilidade de todos os seus atos”.

Colocando assim a gênese das questões no espírito, que em última instância somos nós, na estrada da eternidade. Mas, voltemos ao muro... Se tudo está no espírito, como responsável, por que perdemos para as tentações chamadas da carne, fraca por ser sem relevância? A carne aqui representa a inserção no mundo material, suas influências, rompendo essa dicotomia corpo-espírito, mostrando de que forma a realidade concreta nos molda e por nós é moldada.

Perdemos, pois, desconsiderar a carne, tentando separá-la da matéria como caixas herméticas. Na senda evolutiva nesse mundo, na carne, interagimos com a realidade que se apresenta, crescendo com ela. A cada encarnação apresenta-se um novo cenário, que nos exige mudanças interiores e exteriores, construindo assim o espírito que necessitamos. Inseparável, a relação espírito-matéria é a fonte do crescimento espiritual, não cabendo o desprezo pela vida material, nem o apego excessivo a esta.

A carne não é fraca. Ela é forte como instrumento que testa as nossas fraquezas, que nos serve de desafio para aferir nosso crescimento, como prova de superação, e não devemos subestimá-la. Pelo contrário, perdemos para ela pela nossa fraqueza, como ressalta Kardec, em colocar no espírito a causa, responsável pelos seus atos, mas não devemos desconsiderar a máxima da proporcionalidade do fardo que recebemos com as nossas capacidades.

Eis a questão: não devemos subestimar os fardos, o ambiente e a sua influência. A nossa vontade, quando submetida a prova, pode capitular, e devemos atentar para as provas a que nos habilitamos, sabendo se poderemos encarar a derrota, levantar e dar a volta por cima, sem colocar na fraqueza da carne a culpa por tudo. Por vezes abraçamos fardos múltiplos e simultâneos e caímos, se justificando com a desculpa da carne fraca. Os depoimentos de espíritos pós desencarnação são cheios dessas falas.

Só dizer que tudo é culpa do espírito pode ser um discurso também muito cruel com aquele que cai. Quem está na prova, correndo a frente do “rolo compressor” das dificuldades, sabe que não é fácil e por isso encarnamos, quantas vezes forem necessários, na busca do aperfeiçoamento. Não cabe “a carne é fraca” para quem se justifica, mas também para quem acusa.

Desse modo, fugindo de uma visão mais pecaminosa, temos o espírito presidindo os processos e lutas, na jornada terrestre na carne, que nos serve de instrumento para os desafios da evolução. Ambos são fortes! O espírito que se supera e surpreende, a cada dia, e a carne, que por vezes nos derruba para levantar de novo. É um processo de crescimento, e de autoconhecimento, que nos leva a pensar na magnitude dos desafios, e se às vezes, por eles serem fortes, dentro de nosso fraco espírito, se vale a pena encarar alguns deles em determinados momentos, ou administrar as questões em recuos estratégicos.

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