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Artigo do Jornal: Jornal Setembro 2016
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Amar é bom... Fundamental como potencialidade humana e fonte de felicidade. Amar é a Lei, dito por Jesus no “amai-vos uns aos outros” e reforçado por Kardec no “Fora da caridade...” O amor é a força que alimenta o universo, que nos faz mais, que nos permite acreditar no melhor.

Mas é preciso saber amar. Independente das formas de amor, aquela mais individualizada do amor romântico, ou aquela mais universalizante, mais fraternal do chamado ágape, o amor, em todos os momentos da vida, da infância à melhor idade, necessita se precaver de um outro fator de deterioração: o apego.

Parece contraditório que o amor, pautado na união, na vontade de se estar junto e se querer o bem, possa ser desvirtuado pela questão do excesso de aproximação. O apego transita pela dependência, descambando para o ciúme e para a dominação, fazendo do amor as vezes uma fixação, descolada da realidade. Contamina o amor por torná-lo algo escravizante, o que rompe a visão emancipatória deste sentimento.

Muitos crimes que estampam páginas policiais derivam de um amor dominado pelo apego. Muita dor e sofrimento se faz em nome desse amor.

O amor verdadeiro é saudável, produtivo, traz o bem, em todos os sentidos. É libertador! Quem ama não mata! O amor nos faz não precisar dos outros de forma inconteste, mas sim nos sentirmos fortes justamente por amarmos. O amor nos faz humanos e ainda, nos permite ver a essência humana em cada espírito encarnado, nos ligando por uma tênue energia de interdependência, que é algo muito maior que a dependência.

Não digo que é fácil amar com desapego. É um desafio... A morte, o afastamento compulsório, a doença... São provas que nos levam a experimentar em que medida nosso amor está apartado do apego. Não reputo como simples ser desapegado, amando, mas percebo ser um objetivo a trilhar, para que possamos nos libertar das amarras, transcendendo as questões transitórias da posse.

Como amar uma pessoa sem amar o mundo? Como amar o mundo sem ter amado uma pessoa? Amar é um estado íntimo que modifica a nossa visão da existência, nos motiva a sacrifícios, nos fazendo avançar no sentido espiritual. Distantes estamos, nesse planetinha de provas e expiações, de saber o real sentido dessa palavra, mas certamente sua essência não se liga ao apego, ao medo da perda e do abandono.

Como dizia Paulo de Tarso, na Primeira Epístola aos Coríntos: “O Amor é paciente, é benigno; o Amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo tolera, tudo crê, tudo espera e tudo suporta. O Amor nunca falha”. Palavras que devemos trazer no coração quando abandonados, livre ou compulsoriamente, pelo amor das nossas vidas, mas que devemos lembrar também quando experimentamos a plenitude do amar, recordando da natureza real desse sentimento.

Apegados ao objeto do amor, não permitimos que ele cresça, que ele se torne ele. Mas, ao mesmo tempo, o afastamento, a distância não faz bem ao amor. Tênue equilíbrio entre se estar junto e se permitir que o outro cresça me parece ser um dos fundamentos do amor sem apego. Um exercício constante, construído no cotidiano, de quem não se furta a essa maravilhosa experiência que é amar.

Concluímos com a fala do psicanalista Erich Fromm, espírito sensato, que ao escrever sua obra magistral, A Arte de amar, indica que o amor infantil segue o princípio: “Amo porque sou amado”, e o amor amadurecido se pauta pelo: “Sou amado porque amo”. Da mesma forma, o amor imaturo diz: “Amo-te porque necessito de ti”, e o amor maduro pensa: “Necessito de ti porque te amo”. Um amor maduro, que sobrevive as intempéries, busca, na medida do possível, se desapegar, sem estar longe. Pois sabe que o amor está ali, fora e dentro do seu coração.

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