pteneofrdeites
Artigo do Jornal: Jornal Junho 2016

Sobre o autor

Iris Sinoti

Iris Sinoti

Compartilhar -

       Muitos devem se recordar da canção A Casa, de autoria de Vinícius de Morais, que apresenta uma casa muito engraçada, que “não tinha teto, não tinha nada...”. Mais que engraçada, aquela casa parecia muito estranha, e muitas mentes infantis devem ter tentado entender como alguém poderia morar em uma casa como aquela.

       Mantidas as devidas proporções, aqueles que escutavam Jesus falar do Reino dos Céus também deveriam apresentar certo estranhamento, afinal, um Reino que abdicava desde o seu princípio da participação dos ricos, poderosos e influentes e, “pior” que isso, priorizava os excluídos de toda ordem, parecia não estar destinado a se manter por muito tempo, ou corria o risco de nunca ser construído.

       Na forma poética que lhe é peculiar, Amélia Rodrigues1 narra um diálogo entre Tiago e Jesus, enquanto caminhavam entre Cafarnaum e Magdala, no qual o discípulo expõe ao Mestre sua preocupação:

“Rabi! Falou algo constrangido Faz algum tempo, encontro-me angustiado por dolorosas interrogações. Como sabes prosseguiu, delicado também eu anseio pelo momento da glorificação do Nosso Pai entre os infelizes da Terra. Todavia, creio que, cuidando apenas dessa gente que nos cerca, muito difícil será conseguir colimar os objetivos a que Te reportas e que todos desejamos”.

       E Tiago continuou expondo ao Mestre tudo quanto lhe angustiava. Reconhecia o Mestre como alguém enviado pelo Pai, pois ninguém poderia realizar o que Ele realizava se não estivesse vinculado a forças superiores, mas acreditava que a estratégia do Rabi estava equivocada, pois paralíticos, cegos, surdos, publicanos, meretrizes e até mesmo leprosos, esses últimos excluídos até do livro dos vivos, em nada poderiam contribuir para a causa nascente do Evangelho. E assim pensando, propôs o que acreditava ser a solução:

“Conheço pessoas das classes mais favorecidas que se não negariam a contribuir com a sua posição, suas moedas e títulos, de modo a facilitarem a penetração dos nossos postulados entre os anciães e os mais representativos membros da nossa raça. Todavia, não se inclinariam eles a aceitar uma comunhão com estes que compartem nossos ideais: os proletários infelizes, a ralé sem nome...”

       Claro que se pensarmos em um reino na forma que povoa o imaginário popular, com realeza, castelos, súditos, exércitos, riqueza e muito glamour, tão ao gosto do ego, as bases apresentadas por Jesus estariam fadadas ao insucesso. No entanto, não se pode avaliar Sua proposta sem atentar para a advertência esclarecedora que apresentou a Pilatos quando questionado se era Rei: “Meu Reino não é deste mundo...”2

       De que mundo, então, seria esse Reino? Não sendo do mundo visível, ao qual Pilatos se referia, será que seria de um plano transcendente? Kardec também se ocupou dessa análise, e na penúltima questão de O Livro dos Espíritos3 recebeu por resposta: “Respondendo assim, o Cristo falava em sentido figurado. Queria dizer que o seu reinado se exerce unicamente sobre os corações puros e desinteressados. Ele está onde quer que domine o amor do bem. Ávidos, porém, das coisas deste mundo e apegados aos bens da Terra, os homens com ele não estão”.

       A resposta é clara, não deixando qualquer dúvida de que Jesus referia-se a um reino de ordem interna, a ser construído nas almas na qual o sentimento de amor e a nobreza de valores pudesse ter mais fácil acesso. Talvez essa seja a principal pista para tentarmos entender onde as bases do Seu Reino devem começar a ser construídas, pois se não são externas, deverão ser sedimentadas no interior de cada criatura. É bem provável que Jesus enxergasse naqueles mais sofridos melhores condições de se libertar das ilusões do ego, estando mais acessíveis aos Seus ensinamentos.

 

       Mas se não apresentamos no corpo as características da cegueira, da paralisia, da lepra, sem nenhum demérito àqueles que passam por tais provações, a moderna psicologia nos ensina que essas condições também podem ser entendidas de forma simbólica. Nesse sentido, é válido questionar-se: quando é que a alma se apresenta cega, paralítica, leprosa etc., e precisa do amor do Cristo para libertar-se?

       É o que refletiremos em conjunto na segunda parte deste artigo...


1 Amélia Rodrigues / Divaldo Franco. Luz do Mundo. Editora Leal.

2 Evangelho Segundo João 18:36

3 Questão 1018 de O Livro dos Espíritos

Compartilhar
Topo Cron Job Iniciado