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colegio allan kardec
Por André Parente 

“Há 102 anos, em 1907, o Brasil teve aquilo que eu considero o projeto educacional mais avançado do século 20. Se eu perguntar a cem educadores brasileiros, 99 não conhecem. Era em Sacramento, Minas Gerais, mas agora já não existe. O autor foi Eurípedes Barsanulfo, que morreu em 1918 com a gripe espanhola. Este foi, para mim, o projeto mais arrojado do século 20, no mundo.” (JOSÉ PACHECO, 2009. Site Uol Educação.)

Gostaríamos de trabalhar com a hipótese do Colégio Allan Kardec, fundado por Eurípedes Barsanulfo em 1907, em Sacramento, ter sido o primeiro colégio espírita do mundo, por ter a proposta mais original, ou melhor, a que mais se aproxima do Espiritismo em sua proposta inicial. O Colégio Allan Kardec era um estabelecimento de ensino popular, não era pago, e chegou a ter em seus quadros um pouco mais de 200 educandos matriculados. Esse colégio apresentava algumas ideias avançadas, em uma época em que castigos ainda eram aplicados e o sistema de classe mista era difícil de encontrar no Brasil, em função do dogmatismo religioso, cuja proposta de educação se baseava na visão do pecado original, na qual o homem deveria expiar eternamente o erro de Adão que tinha sido corrompido por Eva, concebida como a principal causa dos problemas humanos. Segundo Tomás Novelino, discípulo de Eurípedes, e ex-aluno do Colégio Allan Kardec, nesse estabelecimento de ensino, meninos e meninas conviviam sem problema algum. Acreditava que isso era muito positivo para a formação dos educandos. Vale destacar que no Colégio Allan Kardec, a avaliação era contínua, isto é, não havia notas e, sim conceitos atribuídos com base na observação diária do educador. Também nesta escola havia aula de religiões comparadas, a partir da qual a dimensão transcendente do ser humano pudesse ser observada e respeitada. Havia, também, a educação ética, porém não uma ética paternalista, dizendo aos outros o que eles têm de fazer, mas despertando o sentimento de humanidade nos educandos, por meio da prática de algum projeto de cunho social. Exemplo: quando alguém morria em Sacramento Eurípedes estimulava seus alunos a prestarem solidariedade à família. Tudo era concebido dentro da liberdade de consciência, princípio máximo espírita, e adotado por Eurípedes como mola mestra de seu trabalho. Havia, também, as aulas de astronomia, resgatando a tradição astronômica espírita, vinda do conhecido astrônomo Camille Flamarion; aulas-passeio, e aulas in loco, isto é, no mesmo local onde o desenvolvimento intelectual e ético fossem melhor aproveitados. Podemos citar alguns exemplos: aula de botânica, dada em um jardim (o que lembrava muito Rousseau e Pestalozzi) e aula de astronomia com um binóculo de alta potência que Eurípedes tinha adquirido. Todas essas práticas pedagógicas, vale destacar mais uma vez, eram muito semelhantes ao que Pestalozzi fazia no Instituto Yverdun, na Suíça. Não existe, ainda, uma prova de que Eurípedes tenha conhecido as experiências do educador suíço.

A sensibilidade social e um profundo respeito à dor alheia também foi usado por Eurípedes no Colégio Allan Kardec, porém com a visão reencarnacionista, esclarecendo que a criança não é uma tábua rasa, porque traz experiências múltiplas de outras vidas, pelo fato de ser um ser palingenésico, atuando em diferentes grupamentos sociais, em diferentes tempos, na busca da autoconstrução. O Colégio Allan Kardec ficou muito conhecido na sociedade mineira e não tardaria a ser fiscalizado por autoridades da época. O escritor Jorge Rizzini reproduz o parecer de Ernesto de Melo Brandão, um dos cinco inspetores que fiscalizaram o Colégio Allan Kardec:

“Visitei hoje o colégio Allan Kardec dirigido pelo competente e dedicado Eurípedes Barsanulfo, encontrando presentes às lições 94 alunos dos 113 atualmente matriculados. Acompanhei os trabalhos escolares, e pude verificar que o método de ensino adotado é racional e que os alunos vão assimilando bem todas as matérias lecionadas neste colégio, que, se impõe ao conceito dessa cidade, não só pela boa disciplina, mas também, pela dedicação desinteressada do seu diretor e seus dignos auxiliares, aos quais deixo consignados nestas linhas os meus aplausos pelos bons resultados que vão colhendo, e meus agradecimentos pelo modo gentil com que me receberam no seu estabelecimento de ensino.” (BRANDÃO, in RIZZINI, 2004: 65)

No Colégio Allan Kardec, não havia punições nem recompensas. Quando os alunos cometiam alguns desvios, Eurípedes corrigia-os amigavelmente. Suas palavras tinham muita força e cativavam os educandos a partir de seu exemplo. Ninguém queria desapontar o educador mineiro. Sobre isso conta-nos Corina Novelino:

“Numa fase em que a palmatória era voz mais que ativa no ambiente escolar, dominando as mais difíceis situações, mas afastando mais e mais o aluno do professor, Eurípedes inaugurou a era do entendimento e do diálogo. O aluno passou a ser respeitado em potencial, pois o mestre conhecia-lhe as faculdades racionais, as percepções, ideias, hábitos e reações condicionadas. Isto vinha estreitar o relacionamento entre professor e seus discípulos, criando entre eles os laços de mútua confiança.” (NOVELINO, 2003: 116)

Das pesquisas feitas com educadores ligados a alguma concepção de mundo que não fosse a materialista, Eurípedes foi um dos que mais estiveram de acordo, existencialmente falando, com o discurso adotado. Os alunos do Colégio Allan Kardec não gostavam de entrar de férias. Era um lugar feliz. Alessandro Cesar Bigueto, educador e especialista em educação, em uma importante obra sobre Barsanulfo, assim se expressa:

“De acordo com os documentos, Eurípedes criou no colégio um ambiente vivo, de alegria, apropriado às crianças se desenvolverem. Além de professores conscienciosos, de materiais adequados, o professor achava que o colégio tinha que ter um ambiente de felicidade, de vida, de acolhimento que contribuía para o desenvolvimento dos alunos.” (BIGHETO, 2006: 210)

Sobre esse clima familiar e alegre, conta-nos Germano, ex-aluno e ex-professor do Colégio Allan Kardec:

“Nenhum aluno gostava de entrar de férias no colégio, porque ficávamos longe do amor do professor e dos estudos, no período de férias não convivíamos juntos. Os alunos e o mestre ficavam com os olhos rasos de lágrimas, já não queriam as férias para não se separarem do mestre. As pessoas que assistiam as festas de despedida se sentiam tão comovidas que choravam com os discípulos. Em geral, todos procuravam ver o mestre nesse período. Eram dois meses custosos para passar, todos ficavam ansiosos para que chegasse logo o dia de recomeçar as matrículas do colégio.” (GERMANO, in BIGHETO, 2006: 212)

A partir dessa experiência pedagógica, muitas outras surgiram, naturalmente sem que existisse nenhum corpo de ideias a respeito de uma possível Pedagogia Espírita. Por exemplo, o educandário Pestalozzi, que consideramos um dos pontos altos da educação espírita no mundo, foi fundado pelo casal: dr. Tomás Novelino, ex-aluno do Colégio Allan Kardec, e de sua esposa, a professora Maria Aparecida. Em um contexto histórico adverso, durante a Segunda Guerra, o casal Novelino foi procurado por um pai que lhe havia contado sobre a expulsão de seu filho de uma escola dirigida por um ex-seminarista. O motivo da expulsão? O fato de ele ser identificado com a Doutrina Espírita. Novelino contou à esposa, a professora Dona Aparecida, e, com o apoio da maçonaria, estabeleceram o ideal de fundar uma escola que respeitasse todas as visões de mundo. Nascia, assim, o Educandário Pestalozzi, em Franca, São Paulo. Em 1º de agosto de 1944, numa casa alugada, a professora Aparecida e Tomás Novelino iniciaram as atividades na Escola Pestalozzi, que não buscava formar espíritas, pelo fato de a liberdade de pensamento e, consequentemente, de escolha estarem nas diretrizes pedagógicas da mundividência espírita. Essa experiência, embora farta em termos de estrutura, dando ênfase à parte estética, propiciando um ambiente adequado para uma boa prática pedagógica, em termos de originalidade, não avançou com relação à contribuição de Eurípedes Barsanulfo. Talvez pela imensa quantidade de alunos, tenha sido difícil manter uma especificidade da Educação Espírita. Porém, outro fato que pode ser destacado é que essa experiência possibilitou indícios de engajamento social que a Pedagogia Espírita possui, nas linhas de Rivail, mais tarde Allan Kardec, que chegou dar aula de graça em sua casa. E, também, na linha de Léon Denis, em seu livro, Socialismo e Espiritismo, mostra-nos a proposta social do Espiritismo, a partir do aprimoramento ético do homem, para evitar a transferência de poder, um despotismo de baixo que venha substituir o de cima.

Diante do que foi exposto neste artigo, vale citar um fato que fundamenta a nossa hipótese de trabalho. Sem simplificar, gostaríamos de aproximar as experiências de Eurípedes, que exerceu grande influência na experiência de Tomás Novelino, com a experiência de José Herculano Pires. Desse tripé surge uma Pedagogia Espírita no Brasil. Em um diálogo com o professor José Herculano Pires, na década de 1970, Tomás Novelino se queixava da falta de uma sistematização da concepção espírita de mundo em sua faceta pedagógica. Isso nos leva a supor que Herculano tinha consciência de que toda prática de alguma doutrina ou teoria precisa ser discutida e reelaborada para o bem de si mesma. Então, buscou preencher essa lacuna e organizar em um corpo de ideias o que, de fato, seria e pretendia a Educação Espírita.

 

Bibliografia:

Fontes primárias impressas

Educação Espírita, Revista de educação e pedagogia. São Paulo, Edicel, 1970 a 1974.

Obras gerais sobre o tema

BIGHETO, Alessandro. Eurípedes Barsanulfo, um educador de vanguarda na primeira república. Bragança Paulista, Comenius, 2006.

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Brasília, FEB, 2008.

DENIS, Léon. Socialismo e espiritismo. Matão, O Clarim, 1987.

INCONTRI, Dora. Pestalozzi. Educação e ética. São Paulo, Scipione, 1997.

KARDEC, Allan. A gênese. São Paulo, Lake, 2004.

KARDEC, Allan. O céu e o inferno. São Paulo, Lake, 2004.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. São Paulo, Lake, 2010.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. São Paulo, Lake, 2004.

KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. São Paulo, Lake, 2013.

KARDEC, Allan. O principiante espírita. São Paulo, Pensamento, 2001.

LOPES, Luciano. Pestalozzi e a educação contemporânea. Duque de Caxias, Associação Fluminense de Educação, 1981.

PIRES, J.Herculano. O reino. São Paulo, Paideia, 2002.

RIZZINI, Jorge. Eurípedes Barsanulfo, o apóstolo da caridade. São Bernardo do Campo, Correio Fraterno, 2004.

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