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Artigo do Jornal: Jornal Janeiro 2016

Sobre o autor

Pedro Valiati

Pedro Valiati

            Naquele tempo, as águas do mar da Galileia já reportavam as lições da ternura e tormenta, conforme os ciclos naturais, as estações. Em janeiro, as brisas suaves pairam sempre tranquilas e previsíveis, contudo, de agosto a setembro, a falsa tranquilidade, por vezes, ludibriava a muitos, ocultando turbulências próximas.

            Havia sido um dia extenuante para o Mestre. Chamou seus discípulos, em especial o pescador de almas, e ordenou a partida, cruzando até o mar de Cafarnaum. O experiente pescador, conhecedor dos fenômenos naturais da época, tentou dissuadi-lO da ideia, em vão:

            – Não nos preocupemos com o que parte de meu Pai.

            Deitou-se à popa, dormindo, enquanto o barco partia, deslizando ao mar ao empuxo dos ventos e remos.

            Comentários muitos sobre as atividades do dia reinavam entre os discípulos, alguns mais amargos, em especial do homem de Cariotes.

            De súbito, o tempo transforma-se, conforme previra o pescador, o vento sopra com força, incontrolável; Nuvens fecham-se como que a anunciar momentos sombrios; As ondas crescem na medida do desespero dos tripulantes; Enquanto Ele, dormia.

            Pedro, angustiava-se ao comando do barco; Judas, acusava o Mestre, punha-lhE a pecha de culpado; André, pedia calma, contudo, sem nenhuma ação tomar; João, O chama, rogando-lhE que aja, intercedendo por todos.

            O Mestre, sereno, diante da grandiosidade das forças naturais que os sucumbia, pergunta:

            – Que temeis?

            Posta-se à proa, abrindo os braços ao mesmo tempo em que desce espetacular relâmpago, a emoldurar-lhE a silhueta de prata, acalmando a natureza. O final, todos conhecemos.

            As passagens do Cristo são assim, uma única experiência, vários ensinamentos.

            Poderíamos mencionar as circunstâncias dos ciclos da vida, conforme o mar da Galileia; ou das lições da fé, quanto a prosseguir nos caminhos da vida, apesar das possibilidades de tormenta as quais de forma ou outra visitam espíritos em busca da purificação; ou ainda, sobre a maledicência de Judas.

            Entretanto, entendamos as crises que nos afligem e qualificam-nos a madureza moral.

            A vida social debate-se nas ondas do crime, da hediondez e da depressão. O tempo percorre o carrio terreno sob as pressões naturais da existência. É necessário despertar a mensagem do Mestre como forma de sossegar as dificuldades, os problemas, os sentimentos. Encorajar os que nos cercam, abençoar os que nos dividem os termos domésticos, manter a calma e a disposição, diante da incúria alheia.

            Encarar as tempestades, amparando, sob a angústia cotidiana, as quais não privilegiam a ninguém, prosseguindo nos ensinamentos da mensagem. Vislumbremo-nos como trabalhadores no contexto da tempestade das discórdias ou das dúvidas.

            Quantas não foram as ocasiões onde a busca por interesses próprios, defendendo o quinhão dos próprios desejos, despertou-se a discórdia e a crítica severa, pouco construtivas?

            Quantas testemunhas invisíveis, presenciaram, diante de decisões familiares a serem tomadas, as nuvens negras da desconfiança, discussões pouco fraternas, olvidando de despertar o Cristo em nós, o respectivo ser essencial. Muitas foram as situações onde procuramos a acusação indébita, a busca por culpados imediatos como solução fácil, o apontar o dedo como a eximir-se da responsabilidade, quase sempre, sob grande tensão.

            Compreender as lições da suavidade e brandura é bastante difícil para aqueles que ainda trazem as agonias das tormentas e conflitos acerbos em si. Incompatível é ser manso e ter, ao mesmo tempo, o espírito atribulado, bélico.

            Paremos alguns instantes a refletir a condição humana na Terra. No geral, não será muito diferente daqueles que contribuem de alguma forma para um mundo melhor.

            O homem, através dos tempos, tem povoado a embarcação íntima nas borrascas dos sentimentos; tem provocado o registro do conflito e da guerra na alma; tem ornamentado, na consciência culpada, os germes da acusação e da crítica, quase sempre, combatendo no outro, o que não elimina em si.

            A acusação chamada através do orgulho e egoísmo, tem o potencial destrutivo de um relâmpago na embarcação do companheiro de jornada.

            É necessário o aprendizado das palavras do Mestre para com a natureza tempestuosa: Acalmai, sossegai.

            Os tempos são outros, chega-se o momento de dominar as forças do ego, abrandar os sentimentos, adestrar o pensamento e assentar o prumo de uma nova rota para o ser humano.

            Interiormente, todos desejamos a paz, a viagem dentro da conformidade. Mas, infelizmente, haverá a dificuldade, os dissabores. A embarcação própria, diante do mar da vida, irá sofrer com o vento cruel, as ondas irão chicotear construções e sonhos, desequilibrando o interior.

            Não devemos nos preocupar com as tempestades da vida, estas avançam sob a vigilância dos anjos de Deus, de acordo com a respectiva necessidade provacional. Devemos, sim, fortalecer a embarcação interior.

            O mar tempestuoso, diante da persistência e resistência do barco a avançar no oceano irá, natural e paulatinamente, amainar a própria fúria. Avançará toda e qualquer a embarcação sob os ventos do esforço e a quilha da fé, protegido pelo casco da paciência e tolerância, rumando a rota do amor e caridade, a navegar seguro nas águas do tempo até a paragem final: Deus, desde sempre, o Porto Seguro.

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