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Artigo do Jornal: Jornal Janeiro 2016

Sobre o autor

Jacob Melo

Jacob Melo

                Costumeiramente ouvimos conselhos que nos conclamam à humildade, à não-vaidade e até ao “deixa pra lá”. O mundo, todavia, nos educa de uma forma um pouco diferente disso. Para merecê-lo, ele nos pede muitas realizações, feitos grandiosos, deduções criativas e pódios. Nada de moleza, nada de peninha, nada de acomodação. Tudo isso parece se configurar como um grande contrassenso, por vezes difícil de se equilibrar nas tarefas e necessidades do dia a dia. Dessa forma, os costumes da vida, em geral, nos têm levado a uma postura pouco favorável, onde fica mais destacado o não feito, o mal feito ou o apontar nos outros o que foi ou deixou de ser feito. É como se devêssemos ser bons, mas não fica bem nos considerarmos como sendo um desses.

            Quando se tenta ser bom, no lugar de elogios e/ou incentivos é mais comum se ouvir expressões apontando como se tudo fosse uma forma de arrogância, de prepotência, de falsa superioridade ou então de se estar querendo chamar à atenção, adulando, sendo falso...

            Jesus nos recomenda buscar primeiro o Reino do Céu; e isso me faz recordar a parábola do Bom Samaritano, cujo personagem, apesar de considerado como herético e tratado como grande inimigo pelos judeus, era bom e, embora tivesse sua projeção e riqueza, disso tudo fez uso para marcar uma singular referência: ser misericordioso. Ele demonstrou, assim, ser plenamente viável unir os ensejos do mundo com os ensinos da alma.

            E assim viemos à vida, para nela vencer, mas será que avaliamos bem o que é vencer na vida?

            Os Espíritos da Codificação nos ensinam que devemos comemorar as vitórias e viver como vivem os homens de nosso tempo (conforme O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulos V e XVII); isto é uma das formas de viver bem. E nesse capítulo XVII, em seu item 7, está dito que “O dever é a obrigação moral da criatura para consigo mesma, primeiro, e, em seguida, para com os outros. O dever é a lei da vida”. E depois acrescenta: “O dever é o resumo prático de todas as especulações morais; é uma bravura da alma que enfrenta as angústias da luta; é austero e brando; pronto a dobrar-se às mais diversas complicações, conserva-se inflexível diante das suas tentações. O homem que cumpre o seu dever ama a Deus mais do que as criaturas e ama as criaturas mais do que a si mesmo. É a um tempo juiz e escravo em causa própria. O dever é o mais belo laurel da razão”. Nosso dever, portanto, diz respeito a tudo ajustar para que não prejudiquemos a nada nem a ninguém. E isso indica que o que se considera como não-vaidade, como necessidade de uma humildade acabrunhadora e do se ser menor em tudo parece distorcer aqueles ensinos. Sendo assim, onde estará o equívoco? Em que estaremos perdendo o senso?

            Quem é bom logo se faz perceber que é bom, não por palavras ou gestos chamativos, mas pela ação bondosa em si. Afinal, não se é bom apenas por se apresentar como tal, mas também não se limita a não aparecer, pois quem é de fato aparece sempre, ainda que se resguarde no anonimato.

            Os grandes vultos da bondade não costumavam nem costumam alardear suas presenças com palavras, tampouco se escondiam nem se escondem da vida; seus gestos, suas expressões, seus jeitos lúcidos de serem falavam e seguem falando por si.

            Já uma grande parte dos seres humanos brada, grita, quer estar na mídia, parece disposta a tomar qualquer atitude ridícula, desde que seja para representar, posto que, ao que parece, pouco têm a apresentar.

            E onde, então, o bom senso, o equilíbrio?

            Esclareçamos: humildade não é sinônimo de silêncio; paz não pede o não-fazer; ter opinião não significa concordar ou discordar apenas; ser bom difere de ser bonzinho; ter consciência tranquila não tem a ver com o ‘tô nem aí!’; caridade não é dar tão somente restos; agir com cristandade não pede Bíblia sob os braços ou referências bibliográficas de memória; perdão não pede esquecimento e sim perdão mesmo; calar nem sempre apazigua; estudar sem praticar é de pouco valor; ser espírita sem atitude espírita é ser não-espírita...

            Jesus foi um dos mais destacados exemplos de que fazer é dever. E não deixou passar sem que tivesse orientado a todos nós: Mateus 10, 5 a 8: A estes doze enviou Jesus, e ordenou-lhes, dizendo: Não ireis aos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel; e indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai. Ao contrário do que podem nos pedir, Ele recomendou expressamente que nossa ação tenha a força do significado da “chegada do reino dos céus”. Como fazer isso sem fazer o que se tem a fazer? Como não anunciar as decisões, as ações, o a que viemos?

            Não se trata de se fazer marketing profissional com as atitudes do coração nem tampouco de se buscar evidência pessoal no terreno da ajuda ao próximo, mas se temos que agir, ajamos.

            Faz tempo li um livro de um magnetizador russo, V. L. Saiunav, intitulado O Fio de Ariadne (1982), onde, ainda na parte inicial da obra, ele expõe sua dúvida em registrar num livro os sucessos de suas curas ou deixar isso para outros escritores. Por sorte (nossa) ele resolveu escrever e descrever suas ações, colocando desde curas de casos de poliomielite até esquizofrenias. Pena apenas que ele não tenha sido tão detalhado como gostaríamos, pois, seguramente facilitaria sobremaneira nossos estudos atuais. Entretanto, cabe a pergunta: e se ele não tivesse escrito? Se tivesse ficado na pouco produtiva ideia do “quem sou eu?”, o que se aproveitaria de suas experiências? Ele pensou mais nos proveitos que alguém poderia vir a ter do que se omitir num cantinho de insignificância.

            Não tem como ser diferente: estamos no limiar de um Novo Ano e muitas promessas surgirão, muitos desejos, quiçá utópicos, serão expressos e até rogados, muitas vibrações de paz para o mundo contrastarão com as inquietudes íntimas... Mas, o que faremos de verdade?

            A Doutrina Espírita precisa voltar a ser uma doutrina, com os seus aspectos todos em pleno vigor. Além do tríplice por todos proclamados – ciência, filosofia e moral –, a arte, que traduz de forma envolvente os frutos das boas sementes do Bem, também pede seu lugar nas considerações gerais. E não temos como fazer isso esperando que as mudanças caiam do céu como se chuva fossem. O Magnetismo deve seguir a trilha traçada por Kardec e pelos Espíritos Superiores; a Mediunidade roga respeito à base e critérios de afinidade com a realidade material e espiritual de sua época; os estudos pedem fidelidade à origem e abertura para se conhecer de tudo; a liberdade só será livre quando a consciência for educada nos padrões morais que enobrece os seres e a vida; o Espiritismo sem espíritos é puro contrassenso; a unificação de corações não pode se lastrear nos regimentos dos interesses pessoais ou de grupos; a moral espírita é a que está na obra de Allan Kardec; a arte começa pela de bem viver, mas pede expressão e movimento, sons e ritmos, cadência e harmonia, tudo lembrando e direcionando ao bem universal.

            Quantas vezes, nesta vida, já fomos chamados à reflexão, ao amadurecimento das ideias e à renovação de propósitos?! Pois estamos todos sendo chamados mais uma vez.

            Relembrando Nando Cordel: “A paz do mundo começa em mim”. E, parafraseando-o: o bom Espiritismo também começa em mim. Por isso, quando fizer algo bom, algo justo, algo que justifique a força dos bons exemplos, diga: “Isso eu fiz!”. E não se incomode se alguém ou o mundo, especialmente o religioso, lhe cobrar posturas mais tímidas e contidas, pois o Bem pede passagem e moradia em nossas vidas.

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