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Artigo do Jornal: Jornal Janeiro 2016

Uma das mais belas canções do artista mineiro Beto Guedes, na composição do saudoso Fernando Brant e do Mestre Milton Nascimento, e que teve também outras belas interpretações; Maria Solidária narra em fragmentos a história de uma mulher que com muito carinho e amor ajuda as pessoas de sua comunidade, mesmo que com palavras apenas, sendo ela uma referência na resolução de problemas cotidianos. Um tipo que guardamos vários exemplos na memória.  

Nesse mesmo naipe, nos recordamos das pesquisas do sociólogo Francês Marcel Mauss, que após estudar as tribos da Polinésia, publicou nos idos de 1925 o texto Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas, obra durante longo tempo desconhecida e que foi recentemente redescoberta, trazendo a força da vida em comunidade, que flui em um rio de relações, na qual se dá e se recebe, mas sem se monetizar essas relações, buscando a sustentabilidade no tecido social, por conta de uma colaboração mútua, de se estender a mão ao irmão.

Essa descoberta do outro, a percepção da interdependência dos seres vivos habitantes do planeta, em um “holo-paradigma” da existência, já cantada por Jesus no “amai-vos uns aos outros”, por Francisco de Assis em sua integração com a criação, por Kardec no “Fora da caridade não há salvação”, e por tantos outros filósofos, políticos e religiosos, nos faz entender que na existência não nos vemos solitários e sim solidários, dependendo uns dos outros,  e que a providência divina utiliza a nós mesmos para promover o bem comum.

Se chove lá, se tem crime acolá, se outros ficam doentes mais adiante, isso nos interessa. O que ocorre no mundo é da nossa alçada. A varíola só foi erradicada quando os países mais desenvolvidos entenderam a necessidade de se atuar nos países em desenvolvimento. Na fieira das encarnações, essa verdade se faz mais cristalina, imersos em uma rede de espíritos que se alternam no mundo de cá e de lá. Todos cordeiros do rebanho do Senhor da vida.

Em tempos de um egoísmo latente, da banalização da dor do outro, da individualização das casas matas em que nos encastelamos, vendo o mundo mediados por aparelhos eletrônicos, em um desenho no qual a competitividade faz de nossa vida um culto ao “eu” e aos “meus”, importa uma reflexão sobre nossa pequenez nesse intrincado mundo das relações.

Cada vez que nos vemos atemorizados ante os riscos da vida, a cada momento de sucesso passageiro, a cada vez que nos vemos envoltos na solidão, esquecemos essa teia de relações e nos albergamos no egoísmo, como se isso fosse o suficiente, revelando-se uma fuga do mundo real, vencidos pelo medo, pela decepção e pela desconfiança. O egoísmo é pai da violência, em todas as suas formas, simbólicas ou não!

Basta ler os jornais, ver os comentários nos blogs e as notícias e saberemos bem do que se trata... Como meninos assustados, nos escudamos em nossos brinquedos e esquecemos que assim como o egocentrismo é a marca da infância, o egoísmo é uma característica da imaturidade espiritual e que se faz necessário romper essa barreira para avançamos. Não adianta olhar somente para si. O foco é em frente, percebendo quem vem ao seu lado.  

Os espíritos são claros nas mensagens a Kardec no Evangelho (Cap. 11), indicando que para que nos amassemos reciprocamente, seria necessário que livrássemos o nosso coração dessa couraça que o envolve, a fim de torná-lo mais sensível ao sofrimento do próximo. Para isso converge, ou deveria, toda a prática espírita-o estudo, a reunião mediúnica, a assistência. O nazareno disse que seus discípulos serão reconhecidos por muito se amarem!

Pequenas doações, um sorriso, uma gentileza, um esforço para desembaraçar situações. Pequenas dádivas que por vezes estão ao nosso alcance e não percebemos, nos recusando a sermos solidários a ajudar. A abnegação é uma virtude tonificadora de nossas relações e a sustentabilidade não vem do utilitarismo e do egoísmo e sim do interesse de ficarmos todos bem, com pequenos sacrifícios aqui e ali, que são recompensados diariamente pela misericórdia divina, que derrama um rio de bênçãos em nossas vidas, ainda que insistamos, por vezes, em não enxergar.

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